É mais do que 20 centavos

Ano passado, o mundo viu uma transformação no Brasil com os jovens indo às ruas pedindo por novas medidas para as questões de mobilidade no país. Após uma violenta resposta policial nos primeiros dias de manifestações, a causa ganhou mais força em todo o país. A frase "Não é pelos 20 centavos" ficou famosa e foi usada para representar angústia e desejo dos jovens por novas soluções — mais sustentáveis e sociais (em mobilidade, na política, na econômica, etc). As reivindicações eram muito mais profundas do que o aumento de 20 centavos da passagem. As manifestações, porém, aconteceram há mais de 6 meses e o que mudou no Brasil — principalmente no que se refere a mobilidade?

Na cidade de São Paulo, a prefeitura iniciou um plano de expansão de faixas exclusivas para ônibus. A medida teve como objetivo facilitar a vida do cidadão — garantido uma melhor experiência com o serviço de ônibus, reduzindo o tempo das rotas. Já são mais de 315 quilômetros de faixas exclusivas. Porém, a ação tem dividido a opinião dos paulistanos, já que para sua implementação as faixas de carro foram reduzidas. O resultado foram mais congestionamentos e cerca de 42 mil multas aplicadas à motoristas que não respeitaram à medida — utilizando as faixas de ônibus (dados de Janeiro de 2014).

Os opositores da ação criticam a falta de qualidade do sistema, e que apenas a implementação das faixas não são capazes de mudar o comportamento das pessoas — que não deixarão seus carros para usarem o ônibus. A medida ainda está em fase de implementação, e por isso, é muito cedo para avaliar os seus verdadeiros resultados para o cidadão. Porém uma coisa é clara: passageiros de ônibus e metro esperam por melhores condições de uso do sistema, que não é suficiente para a crescente demanda. Para demonstrar essa realidade para o Governo e outros cidadãos, o portal Catraca Livre criou a galeria #canseidesersardinha, convidando usuários a enviarem fotos de suas experiências "esmagadoras" nos ônibus e metros.

Então, como resolver os problemas de mobilidade no Brasil? Um interessante movimento aconteceu na cidade de Porto Alegre, no sul do Brasil. O Governo havia decido não aumentar as passagens após as manifestações, porém, no início de 2014 os rodoviários entraram em greve — exigindo um aumento de 15% no salário. Por duas semanas, 100% das linhas municipais deixaram de circular na cidade. Você consegue imaginar o impacto que isso gerou na vida do cidadão?. Para tentar controlar esse caótico cenário, a Prefeitura decidiu eliminar custos no sistema (e viabilizar um crescimento moderado dos salários) cortando o ar-condicionado dos ônibus — por enxergarem como um item de luxo. A mudança será votada no final de Fevereiro, como um novo plano de licitação. Porém, essa não é a mesma visão dos passageiros que consideram o ar condicionado essencial para superar o grande calor no verão e o rigoroso inverno da cidade. Por isso, alguns cidadãos se uniram para levantar novas soluções, por meio de um evento aberto no Facebook, criando um novo diálogo com poder público — que já gerou algumas respostas oficiais do Prefeito.

O mais interessante desse movimento é o desejo dos cidadãos de participarem das decisões da cidade. E essa é a real mudança e o Governo ainda não conseguiu decifrar uma forma de envolver as pessoas no processo. Os sistemas urbanos são complexos e nunca agradarão à todos (ao menos, não inicialmente), porém demandam novas soluções — que possam ser construídas de forma mais colaborativa e inovadora.

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