O sonho brasileiro da política

Junho de 2013 foi um marco no Brasil. Milhões de jovens saíram as ruas, com cartazes em mãos mostrando indignação com o modo que o Brasil estava sendo conduzido – primeiro em relação ao aumento das passagens, e que depois evoluiu para outros problemas como a corrupção, falta de investimento na educação, as loucuras da Copa do Mundo, etc.

A grande pergunta que ficou, na minha opinião, foi como esse movimento impactaria na participação política dos jovens no Brasil? A Box1824, consultoria de tendências brasileira, decidiu investigar as novas relações entre o jovem e a "política" através da pesquisa "Sonho Brasileiro da Política". Os resultados foram apresentados em setembro de 2014, em um evento no Museu de Arte de São Paulo (MASP). O estudo envolveu 1.200 entrevistas quantitativas e 300 qualitativas, com jovens de 18 a 32 anos em sete capitais brasileiras (Belém, Belo Horizonte, Brasília, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo), das classes A, B e C. Você pode conferir os resultados na íntegra aqui.

Entre os principais resultados do estudo, escolhi quatro dados que mostram o novo comportamento dos jovens em relação a política.

Em primeiro lugar, o principal efeito das manifestações foi o despertar do jovem sobre o tema. A ida às ruas trouxe à tona iniciativas que já estavam acontecendo, mostrou causas em comum e a força de transformação do jovem – isto é, que as pessoas, cidadãos comuns, também fazem parte e devem participar do sistema político. Na prática, acabou influenciando em três grandes esferas: na retomada dos espaços públicos, usando-os como pontos de encontros e experimentação; na autoeducação política, produzindo e criando novos conteúdos independentes e sem intermediários para entender os processos e sistemas atuais; e a geração de novos encontros e manifestações, uma espécie de reverberação no país, onde os jovens foram se fortalecendo e criando encontros ligados às suas necessidades locais.

Para ter uma dimensão dessa mudança, 61% dos jovens entrevistados afirmaram que seu interesse e abertura em relação ao tema aumentou depois da manifestações. E 16% estão agindo ativamente para uma mudança, sendo 8% atuando de forma propositiva – isto é, não estão usando os caminhos tradicionais (projetos sociais, ONGS, grupos de igreja, etc.) e criando novas interações com os sistemas municipais, estaduais e até federais. Esse grupo foi chamado de "Hackers da Política", por visualizarem novos futuros e agirem na sua construção, usando espaços e ferramentas online e offline para isso.

Outro ponto interessante da pesquisa foi entender que existe um caráter experimental nessa ação jovem – são diversos movimentos e causas simultâneas, que são testados na prática. O Hacker da Política chega a se envolver, em média, em 6 causas ao mesmo tempo. Entre as principais áreas de interesse são a cultura de paz (e como mudar a violência no seu cotidiano), a inclusão/igualdade social, questões ambientais, a cultura de periferia e a internet livre. Assuntos que não são tratados diretamente pelos partidos e maioria dos políticos. Os jovens se desconectam da figura do governante, para buscar pessoas e movimentos com os mesmos ideias.

E a pesquisa também mostrou como estão sendo formatadas essas experiências, por meio de Células Democráticas, isto é organizações não institucionais, em redes, de forma fluída e descentralizada. São iniciativas que estão dialogando com os processos tradicionais políticos – por meio de novas ferramentas digitais, por novas formas de ocupação e gestão do espaço público e novas parcerias entre o poder público, privado e a própria sociedade.

A pesquisa, então, mostrou este movimento, que ainda é emergente e pequeno comparado a grandeza do país, mas possivelmente trará importante resultados no longo prazo. Isto é, a medida que essas experiências forem gerando resultados positivos, refletirá em uma nova atitude em todo o sistema – mais jovens sendo empoderados, novos diálogos abertos e novos processos criados.

Cédito das Imagens: Projeto Sonho Brasileiro da Política

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