Vamos falar mais sobre oportunidades e menos sobre cadeia?

Ano passado, eu tive a oportunidade de viajar pelo interior do Brasil, visitando cidades do semiárido brasileiro. No total, foram 9 cidades de 5 estados que tinham um ponto em comum: os maiores indicies de ocorrência de trabalho infantil no país. O projeto envolveu o mapeamento das principais dificuldades e oportunidades da vida dos jovens locais, para em um segundo momento, cocriar soluções com eles que pudessem ajudar a combater o problema.

O cenário era muito parecido em todas as cidades: os jovens tinham poucas referências e oportunidades na vida (de trabalho, sociais, culturais, educacionais, etc). Era comum ver os filhos seguindo os mesmos passos dos pais ou dos amigos, porque conseguiam enxergar os futuros já existentes e percorridos na cidade. Na prática e na maioria dos casos, isso significava trabalhar no comércio, na roça, na feira, como babá ou empregada na casa de terceiros, como professores ou (se tiverem muita sorte) na prefeitura da cidade. Esse último, é o que paga melhor, um salario mínimo. Esse é o teto na maioria dessas cidades. Com esse cenário, não é de se espantar a falta de interesse dos alunos na escola (deficitárias) ou em cursar um ensino superior (muitas vezes, acessível apenas em outra cidade). Muitos jovens nos contaram, que a família era contra continuarem os estudos depois de formados no colégio. Afinal, qual o benefício?

A pior parte foi constatar que algumas pessoas se beneficiam desse cenário, e o usam para recrutar jovens para atividades ilícitas ou perigosas (como guardadores de carro, plantações na cana de açúcar, pro tráfego de drogas, como garçons), com a promessa de um salário 4 vezes maior que o mínimo (ou seja, o máximo da cidade). É uma dura realidade e uma difícil escolha, que é incentivado pela nossa sociedade consumista – afinal, tudo que esses jovens querem é comprar coisas, como roupas de marcas, celulares e até mesmo dar para os seus pais a casa própria.

Depois dessa experiência, uma medida como a redução da maioridade penal me parece totalmente incoerente – se a nova lei for aprovada, jovens de 16 anos responderão na cadeia por crimes hediondos, homicídio doloso e lesão corporal seguida de morte. A proposta tem com "objetivo" reduzir os índices de criminalidade no país, e aparentemente a maioria dos brasileiros é a favor da medida: segundo uma pesquisa da DataFolha, 87% dos entrevistados (numa amostra de quase 3 mil participantes). Depois de ser aprovada na Câmara dos Deputados, o projeto de lei será decidido em votação no Senado.

Será que o governo realmente acredita (e as pessoas a favor do projeto de lei) que essa medida reduzirá os crimes no país? A minha experiência no semiárido mostrou que é possível empoderar jovens por meio de boas oportunidades e referências. E existem milhares de estudos que provam a relação da educação e da prática de esportes com a diminuição da violência. Não é um caminho fácil ou simples, mas uma coisa é certa: o Brasil deveria estar preocupado em criar novas perspectivas – criativas e sustentáveis, e não mais espaço nas cadeias já superlotadas.

Cidade de Inhapi, em Alagoas, que tem o pior IDHM (Índice de Desenvolvimento Humano Municipal) do país e foi uma das cidades visitadas no projeto realizado pela Livework para Fundação Telefônica Vivo.

Comments

Sem dúvida Carla... mais oportunidades e menos cadeias!!
O Brasil é o 120° no mundo em relação a facilidade de fazer negócios... http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2014/10/1540025-brasil-e-120-em-amb...
O governo é o problema, não a solução... e a única solução que o governo enxerga para tratar questões é mais governo... uma filosofia esquizofrênica ao meu ver...

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