A revolução da bicicleta em São Paulo — uma vitória do cicloativismo

Eliana Barbosa, Coordenadora da Rede em São Paulo
São Paulo, 9 outubro 2014

Sao Paulo está passando por uma revolução ciclista. Uma inesperada política voltada para o uso da bicicleta — como resposta de uma promessa de campanha do novo prefeito — está literalmente se materializando diariamente na cidade. A meta é implantar rapidamente 400 novos Quilômetros de ciclovias até o fim de 2015, numa ação que já foi chamada de ciclomania.

Em uma cidade com as dimensões de São Paulo, mobilidade é um tema crucial dentre as polípticas públicas. Apesar do seu baixo impacto ambiental, até muito recentemente a bicicleta não era seriamente considerada como um meio de transporte pelo setor público, fato representado pela política de ciclo-faixas de lazer, lançada em 2009, através da qual vem sendo montadas estruturas provisórias aos domingos, para que os habitantes possam aproveitar aos domingos, das 7hs às 16hs, uma infraestrutura ciclável temporária. Apesar de conscientizar e sensibilizar o público geral, aumentando o número de ciclistas urbanos, a iniciativa não almejava contribuir para a melhora do sistema de mobilidade da cidade, pelo contrário. A mensagem passada era de que andar de bicicleta é uma atividade de fim de semana, não uma prática diária.

Assim, apesar da falta de políticas – ou por conta da falta de vontade política – formas de ativismo voltadas ciclista cresceram nos últimos cinco anos na cidade, com o aparecimento de ONGs como Vá de Bike, Ciclocidade, Bike Legal, Bike Anjo, entre outras. De grupo de ciclista organizando bicicletadas, a ONGs de suporte ao ciclista iniciante, pudemos assistir uma crescente discussão, demandando um olhar mais atento à bicicleta como uma alternativa séria no complicado sistema de mobilidade da cidade.

O ativismo valeu a pena. A nova política está criando ciclovias num ritmo nunca visto na cidade, mas o processo envolve muito conflito. Da promessa à ação não houve tempo para incorporar consulta e participação no processo. Num urbanismo de guerrilha, a prefeitura começou a pintar as ciclovias antes mesmo de anunciar o plano. As reações foram muito distintas. Por um lado os ciclistas — quase descrentes — abraçaram de imediato a iniciativa e criando um mapa colaborativo da nova infraestrutura. Do outro, motoristas e proprietário e comércio de rua ficaram furiosos, já que não apenas não foram avisados, como as ciclovias foram colocadas passando por eixos comerciais importantes e bairros nobres, muitas vezes tomando o espaço de vagas de estacionamento. A reação mais controversa foi apresentada pela Associação Comercial de Santa Cecília, que prestou queixa contra a prefeitura por conta de uma ciclovia do bairro. Para os que são contra, o argumento é que "São Paulo não é Amsterdã".

Apesar de polêmica, a criação de infraestrutura para a bicicleta é necessária, contribuindo não apenas para a segurança dos ciclistas atuais, como oferecendo um modal alternativo para os deslocamentos diários de muitos paulistanos. O plano e sua rápida materialização foram um primeiro passo, uma forma de testar a solução. Entretanto, melhorias são necessárias, tanto no processo, quanto no desenho. O próximo passo deverá ser desenhar formas de participação pública, revisar os traçados problemáticos e melhorar a qualidade das faixas. Ainda assim o progresso é evidente. Nunca um pouco de tinta vermelha provocou tamanho impacto na vida de tanta gente como o que foi usado para pintar as novas ciclovias paulistanas. Close.

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