Aliando tecnologia e solidariedade, cooperativa de construção civil protagoniza luta pela inclusão social

Andréa Azambuja, Coordenadora da Rede em Rio de Janeiro
Rio de Janeiro, 23 janeiro 2015

O enorme contraste econômico e social do Rio de Janeiro é evidente: boa parte das comunidades carentes faz fronteira com áreas ricas. É o caso da Jardim Shangri-lá, localizada em Jacarepaguá, bairro com um dos metros quadrados que mais encarecem por ano e que vem sendo elitizado, enquanto a maioria da população local é negligenciada. Mas aliando organização social, educação, tecnologia e solidariedade, uma associação de moradores está determinada a diminuir essa disparidade, literalmente, com as próprias mãos.

O Constrói Fácil surgiu em 1992 como uma cooperativa focada em gerar trabalho e renda para os indivíduos da região excluídos do mercado de trabalho. Com R$ 7 000 de investimento inicial, compraram maquinário e matérias-primas básicas e logo ergueram 29 moradias em sistema de mutirão — e iniciaram uma trajetória consistente na construção civil. Movidos pelos lemas "Inclusão Social e Autogestão Não Precisa de Patrão" e "Produzir e Partilhar", estudaram, compartilharam conhecimentos e conquistaram autonomia financeira, até que realizaram que precisavam se qualificar para dar um salto expressivo na difícil escalada social.

Assim, em 2011, com o apoio da Fiocruz — instituição de promoção do desenvolvimento social e difusão do conhecimento científico — elaboraram um plano de educação ancorado em tecnologias eco-eficientes acessíveis em habitação, que capacita pessoas não apenas para aplicarem as técnicas profissionalmente e nas suas casas, mas também para qualificar outros profissionais. A iniciativa foi implementada no próprio grupo, já mudou a vida de centenas de famílias e recentemente foi certificada pela Fundação Banco do Brasil, que premia e difunde soluções efetivas de inclusão para serem replicadas em outros contextos.

Entre as muitas tecnologias abordadas na formação, está a implementação de um sistema de aproveitamento da água da chuva (AAC) e um de aquecimento solar de baixo custo (ASBC), em parceria com a ONG Sociedade do Sol. Ambos não agridem a camada de ozônio, são construídos com materiais comuns e custam menos de R$ 500,00, valor resgatado, segundo o programa, no período de cinco a oito meses com a expressiva economia nas contas mensais — que se torna permanente.

O aprendizado acontece através da construção efetiva de uma residência ao longo de 18 meses, metodologia definida pelos integrantes da Constrói Fácil com o auxílio de um consultor. A obra é realizada por tutores especialistas em conjunto com os aprendizes, que participam ativamente de todo o processo, da elaboração das plantas e da compra de materiais à realização de todas as instalações, visitas técnicas e avaliação de resultados. Paralelamente, os métodos são revistos e discutidos em oficinas teórico-práticas, das quais também participam outros grupos sociais (escolas, ONGs, associações de pais). O esquema pedagógico é reforçado com elementos audiovisuais e inclui a construção de protótipos das tecnologias ASBC e AAC pelos alunos, seguido da instalação real dos modelos nas casas de dois deles.

Como resultados da experiência, o tempo e os materiais empregados na obram tiveram redução proporcional de 30 por cento a 40 por cento, o volume de entulho gerado caiu 80 por cento e o retrabalho, o desgaste físico e os riscos envolvidos diminuíram sensivelmente, enquanto a qualidade do acabamento e do ambiente de trabalho decolaram. Ainda foram notados inúmeros outros benefícios, entre os quais dois se destacam: o empoderamento social e o potencial de multiplicação do conhecimento. A Constrói Fácil já finalizou cerca de 30 moradias com as novas tecnologias, virou microempresa e tem lista de espera de clientes interessados, ao passo que centenas de outras casas estão sendo erguidas, em mutirões, com as tecnologias verdes aprendidas nas oficinas por outros agentes sociais, que continuam a aplicá-las e disseminá-las. Um grande exemplo da força da comunidade organizada como protagonista da inclusão social.

Fotos: Grupo Constrói Fácil

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