Consciência ambiental e apoio psicológico na capacitação profissional de jovens carentes

Andréa Azambuja, Coordenadora da Rede em Rio de Janeiro
Rio de Janeiro, 20 fevereiro 2015

Um dos principais desafios socioeconômicos no Rio de Janeiro é inserir os jovens desempregados com menos de 24 anos no mercado de trabalho formal. A maioria deles – que representam aproximadamente 20 por cento (cerca de um milhão e trezentas pessoas) da taxa total de desemprego na cidade – mora nas favelas, onde o tráfico de drogas se apresenta como uma fonte de renda mais lucrativa. Entre diversos programas do governo focados na qualificação profissional nestes aglomerados subnormais, uma iniciativa da Secretaria do Ambiente (SEA) tem virado referência.

Trata-se do Fábrica Verde, que capacita jovens a partir de 16 anos para trabalhar com a montagem e manutenção de computadores utilizando equipamentos descartados. Criado em 2011, o projeto está presente em 14 comunidades e conta com 11 pontos fixos de coleta de lixo eletrônico – cerca de 1.100 alunos já foram certificados, aproximadamente 200 toneladas de resíduo foram recolhidas e mais de 2000 computadores foram reaproveitados. Todas as máquinas construídas são destinadas a telecentros comunitários, espaços de acesso público e gratuito com acesso à internet; atualmente, 35 estão em atividade graças ao Fábrica Verde.

Para participar do programa, os jovens precisam estar matriculados ou ter concluído o Ensino Médio e recebem bolsa auxílio no total de R$ 360,00. A formação acontece diariamente durante três meses e inclui aulas de empreendedorismo e economia criativa. A cada turma de 120 alunos, ao menos seis são contratados oficialmente como monitores, com salário fixo, e, segundo a superintendente de Território e Cidadania do SEA, Ingrid Gerolimich, cerca de 25 por cento saem inseridos no mercado do trabalho externo. Os formandos também têm acesso a consultoria e linhas de crédito especiais com a Agência Estadual de Fomento (AgeRio) para montar negócios próprios, e parcerias com companhias como Microsoft e Apple estão sendo estudadas.

Além de mão de obra qualificada, o Fábrica Verde promove uma importante consciência socioambiental, disseminando a cultura de reciclagem nas comunidades, muitas vezes desprovidas de serviços básicos de saneamento, e incentiva a formação de grupos produtivos independentes focados na economia solidária. Pelo perfil e pelos resultados, o projeto foi certificado pela ONG R20, apoiada pela ONU, e está em vias de ser implantado em Angola, a pedido do país.

O Vira Vida é outro projeto bem sucedido de empoeiramento juvenil para o mundo do trabalho, mas da iniciativa privada. Criado pelo Conselho Nacional do Serviço Social da Indústria (SESI), instituição sem fins lucrativos, apoia meninos e meninas entre 16 e 22 anos vítimas de violência sexual, oferecendo um programa de qualificação que inclui não apenas capacitação técnica (de acordo áreas de interesse, como cursos de Auxiliar Administrativo, Operador de Computador e Beleza) e educacional (inclusive reforço do currículo escolar nacional básico – todos precisam estar matriculados na rede pública), mas também assistência médica, odontológica, psicológica e integração cultural e artística.

Durante 12 meses, são cerca de nove horas diárias de atividades gratuitas, realizadas em três sedes próprias, na Rocinha, Cidade de Deus e Jacarezinho, e na de parceiros como SESC e SEBRAE. Todas são ministradas por profissionais especializados e acompanhadas por assistentes sociais – paralelamente, técnicos de empregabilidade oferecem orientação vocacional e fazem articulações com empresas empregadoras. Desde 2011 no Rio, o Vira Vida atendeu 143 jovens e 35 por cento deles foram imediatamente inseridos no mercado do trabalho. Mais do que isso, com o apoio psicológico para a superação de traumas, hoje, estes meninos e meninas são seres humanos mais independentes, conscientes da sua força transformadora e preparados para lutar por sua evolução.

Atualmente o Vira Vida está presente em 20 estados brasileiros, em El Salvador e sendo implantado no México e a perspectiva é que vire uma política pública.

Fotos: Luiz Morier, Vira Vida & Agência da Boa Notícia

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