Transformação social que começa na cozinha

Felipe Villela, Coordenador da Rede em São Paulo
São Paulo, 25 fevereiro 2015

Nascer em família pobre na periferia da Região Metropolitana de São Paulo significa enfrentar quase cinco vezes mais chances de desemprego na juventude. Segundo estudo da Fundação Seade com dados levantados entre 2012 e 2013, a taxa de desocupação entre 16 e 24 anos é de 18,6 por cento para jovens de baixa renda e 4 por cento para os mais ricos.

Mas há quem vença a estatística. Caso de Matheus Oliveira (22), que vive no Capão Redondo, bairro no extremo sul que amarga o título de segundo pior distrito para se viver em São Paulo, conforme Mapa da Desigualdade, da Rede Nossa São Paulo. Em 2013, Matheus não precisou pagar quando fez o curso profissionalizante em gastronomia da Gastromotiva. Hoje é cozinheiro em um restaurante badalado no bairro nobre da Vila Madalena.

O jovem chef é um dos 1.200 alunos formados pela organização sem fins lucrativos que atua nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador. Em São Paulo desde 2006, a Gastromotiva oferece cursos semestrais para jovens com renda familiar de até três salários mínimos — a maioria moradores da zona sul, como Matheus, e da zona leste da cidade.

Além de treinar aspirantes a cozinheiros, a Gastromotiva também os ajuda a entrar no mercado de trabalho por meio de parcerias com restaurantes que procuram o projeto em busca de mão-de-obra qualificada.

Para os alunos, os novos contatos profissionais podem fazer toda a diferença. Conforme aponta a Seade, uma das causas do desemprego são os contatos limitados do jovem e sua família, já que a rede social é um importante meio para conseguir trabalho.

Além do primeiro grau completo, disse ao URB.im Ernani Vieira, presidente da Gastromotiva, são pré-requisitos "paixão pela cozinha" e "disposição para trabalhar duro".

A paixão dos alunos torna a iniciativa singular. Como sugere o relatório da Seade, a alta taxa de desemprego entre jovens pobres também está associada ao desinteresse pelas vagas oferecidas. Para promover transformação social por meio do trabalho não bastam oportunidades para gerar renda — é preciso permitir que as pessoas sigam suas vocações.

Alessandra Guilherme (26), por exemplo, cozinhava doces "para fora" para complementar a renda familiar. O trabalho de cozinheira se profissionalizou depois da Gastromotiva, em 2013. Hoje, a moradora da Vila Ema, zona leste paulistana, tem seu próprio buffet de festas. "Precisava aprender mais para aperfeiçoar meu trabalho e quem sabe mudar de vida."

Em Salvador, o curso alcançou 50 candidatos por vaga — 2 000 jovens para apenas 40 postos — em 2014.

Matheus Oliveira diz ter vencido a seleção em São Paulo porque a gastronomia já fazia parte de sua história. Antes de conhecer a Gastromotiva, participava do projeto Prato Firmeza, um guia sobre gastronomia na periferia. Colaborou até o momento em que não foi mais possível conciliar com o trabalho no restaurante.

Cozinhar em grande quantidade é difícil e exige trabalho em equipe. "Têm o chefe, o subchefe, o saladeiro, o cara da pia. Se não trabalharem juntos a comida não sai", comenta Ernani Vieira. Por isso, o curso profissionalizante oferece classes de postura profissional, além de técnicas de panificação, confeitaria e cozinha brasileira.

As aulas acontecem em escolas particulares de gastronomia, geralmente durante a tarde, momento em que as cozinhas não são usadas pelos alunos regulares destas escolas.

A transformação social por meio da cozinha não se restringe aos alunos. Alessandra Guilherme, que montou o Buffet Fabriquinha de Alegria depois do curso, contou ao URB.im que agora emprega vizinhos, gerando renda também para sua comunidade.

"Digamos que aqui sou a moça que deu certo na gastronomia. Também ministro aulas e já vejo pessoas que ensinei dando certo".

Foto: Angelo Dal Bó

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