Mapeando São Paulo insurgente

Felipe Villela, Coordenador da Rede em São Paulo
São Paulo, 24 março 2015

Ao menos quatro mil familias moram em edifícios ocupados no centro de São Paulo. Mesmo assim, o movimento de moradia dos sem-teto costuma ser invisível para muitos paulistanos. Foi o que um grupo de urbanistas belgas descobriu ao promover workshop para mapear esse movimento popular. Entre os participantes, nem mesmo aqueles nascidos e criados na cidade conheciam ocupações por dentro.

O workshop "Cartografia insurgente: mapeando a São Paulo ocupada" aconteceu durante a primeira semana de março e reuniu aproximadamente 30 pessoas, entre profissionais e estudantes de arquitetura, urbanismo, ciências sociais e artes visuais. A iniciativa partiu do urbanista Jeroen Stevens da Universidade Federal de Leuven, na Bélgica, que investiga movimentos de moradia popular responsáveis pela ocupação de edifícios abandonados na região central de São Paulo. Para o pesquisador, esses grupos organizados de sem-teto promovem uma transformação positiva, independente de planejamento oficial do Estado. Esta política urbana "de baixo para cima" é classificada por Stevens como um "urbanismo insurgente".

O grupo belga inclui ainda as pesquisadoras Carmem Briers e Lisa De Vos, que moraram durante o mês de fevereiro no hotel Cambridge. Hoje ocupado por 170 famílias, o edifício foi um hotel de luxo até o fim da década de 1990. Depois, passou por um período de abandono até ser ocupado em 2012. Entre os primeiros moradores que entraram no prédio ainda é forte a lembrança da sujeira que encontraram. Infestado de pragas, abarrotado de lixo e com problemas de infiltração que ameaçavam as instalações elétricas, o hotel abandonado representava um risco para a vizinhança. Os novos moradores organizaram mutirões para recuperar o prédio, em um processo "muito lento e gradual que pouco a pouco transforma um lugar na cidade em um lugar para se viver", como observa Stevens.

A intenção do workshop era trazer um olhar local para a pesquisa de campo dos belgas. Pretendia-se utilizar a cartografia como ferramenta para demonstrar visualmente os temas investigados, em uma tentativa de desvendar a realidade das ocupações e traduzir graficamente o cotidiano dos moradores.

Com ajuda da urbanista paulista Eliana Queiroz Barbosa, a oficina começou com visita a cinco edifícios ocupados pelo MSTC (Movimento Sem-teto do Centro), vinculado à Frente de Luta por Moradia (FLM). Depois foram propostas apresentações parciais dos mapas desenvolvidos pelos participantes a cada dois dias, de forma que o primeiro rascunho estivesse em papel A4, seguido de outro em A3, até o produto final entregue em formato A1. Os participantes também foram orientados a escolher uma escala de análise, que poderia ser pequena (tamanho de um edifício), média (contexto do bairro) ou grande (toda a cidade). Mesmo com essa separação metodológica, a expectativa era que os mapas articulassem todas as escalas. O resultado do workshop foi exposto na biblioteca comunitária do hotel Cambridge, local que também serviu de base para todo o trabalho.

Os mapas, no entanto, não revelaram apenas o objeto de estudo, mas também seus autores. O que os estrangeiros não esperavam é que os participantes locais do workshop conhecessem ocupações ainda menos do que eles. Por mais que as visitas aos prédios ocupados tenham ajudado a dar visibilidade ao trabalho organizado dos movimentos de moradia popular, a inexperiência dos visitantes comprometeu a profundidade das análises. Mesmo assim, mapear promoveu uma experiência de indignação entre os participantes que ajudou a desmistificar ocupações e abrir novas portas para colaboração. Para Barbosa a cartografia, neste caso, "mobilizou para uma causa através de uma metodologia artística".

Image 1: Trajectories of Collectivity - map by Lisa De Vos; and Ocupanet - network map by Felipe Villela. Image 2: Occupied Childhood - appropriation map by Marieta Colucci Ribeiro; and Temporary Conversion - transformation map by Bibiana Tini.

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