Biogás — uma nova solução para dois antigos problemas do Brasil: excesso de lixo e carência de energia

Andréa Azambuja, Coordenadora da Rede em Rio de Janeiro
Rio de Janeiro, 7 abril 2015

Eficiência energética é um assunto caro ao Brasil que tem recebido particular atenção nos últimos meses. Enquanto cerca de um milhão de brasileiros ainda não tem acesso à energia (a estimativa não incluí quem vive em acampamentos, que não podem ser ligados oficialmente), o país enfrenta uma grande crise hídrica, que expõe a fragilidade de seu sistema de abastecimento de luz, mais de 70 por cento amparado por hidrelétricas.

Ao passo que organizações independentes a exemplo do Insolar e do Greenpeace lutam por conta própria para instalar placas solares em comunidades carentes e combater a exclusão energética aproveitando o sol tropical, uma lei federal aprovada em 2010 tem fomentado investimentos numa outra fonte sustentável e acessível.

Trata-se da Lei de Resíduos Sólidos, que determina o fechamento de todos os lixões do país até 2018. O Brasil é o quinto maior produtor de resíduos sólidos do planeta, e esses vazadouros informais recebem diariamente cerca de 79 mil toneladas de detritos — matéria-prima em potencial para a produção do biogás, biocombustível produzido com o metano oriundo da decomposição de matéria orgânica.

No estado do Rio de Janeiro, o biogás já é uma fonte de energia notável. Boa parte disso se deve ao Centro de Tratamento de Resíduos de Seropédica, um moderno aterro sanitário construído para substituir o antigo lixão de Gramacho, que durante 35 anos foi considerado o maior da América Latina e recebeu quase todo o lixo da capital e da Baixada Fluminense.

Desde 2011, Saropédica armazena e trata, obedecendo normas internacionais de preservação, as cerca de nove mil toneladas diárias de detritos que eram descartadas em Gramacho, que agora funciona como usina de biogás. A produção é significativa: são 70 milhões de m3 por dia — volume que poderia abastecer todos os estabelecimentos comerciais e residências cariocas.

A bioenergia gerada em Gramacho por enquanto é destinada a uma refinaria de petróleo, a Reduc, mas a expectativa é que em breve abasteça também seus arredores, compostos por bolsões de pobreza. O mesmo deve acontecer no Gericinó, outro grande lixão que foi encerrado e está em obras para gerar energia — num futuro próximo, deverá fornecer biogás para escolas públicas e um complexo penitenciário próximos —, e no próprio Seropédica, que também terá usina do combustível.

Seropédica é uma iniciativa do governo do Rio, mas agentes da sociedade civil também têm explorado o biogás, desenvolvendo microssoluções. É o caso da escola pública Guilherme da Silveira Filho, onde professores e alunos construíram, com materiais simples, três biodigestores que transformam restos de comida e esgoto em bioenergia e já conseguem abastecer a cozinha da instituição.

Os líderes do projeto firmaram parceria com duas universidades, que analisaram o combustível gerado, e agora estão em busca de apoio financeiro para instalar um gerador que converta o gás em energia elétrica e para prover todo o quarteirão. Segundo eles, há possibilidade de redução de até R$ 1.000,00 nos custos mensais da escola, outros benefícios, porém, talvez sejam mais importantes: promover a consciência ambiental na região e formar multiplicadores da tecnologia, que pode ser facilmente replicada.

A produção do biogás ainda é embrionária no Brasil e precisa evoluir. Quando está atrelada ao lixões, por exemplo, deveria estar acompanhada de uma política de inserção de catadores no mercado de trabalho. Alguns especialistas também questionam sua eficácia para resolver o problema no setor elétrico e apontam custos altos. Apesar dos obstáculos, é uma alternativa pertinente para fortalecer os esforços na luta pela inclusão energética, especialmente no atual contexto de calamidade ambiental — uma alternativa que certamente tem muito potencial a ser explorado, tanto em macro quanto em micro-escala.

Fotos: Extinto lixão de Gramacho, Folha de São Paulo; CTR Seropédica, Cidade Olímpica; Esquema de funcionamento de um biodigestor caseiro, Blog BGS.

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