Aquecedores solares de baixo custo se espalham por São Paulo

Felipe Villela, Coordenador da Rede em São Paulo
São Paulo, 27 abril 2015

A autoconstrução é a solução encontrada por pelo menos 11 por cento da população residente na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) para conseguir um lar, segundo o censo de 2010 do IBGE. Entre as pessoas que não tem renda suficiente para comprar ou alugar um imóvel no mercado formal, resta a ocupação informal de terras impróprias para a construção. Nestes lugares, as casas são construídas com acesso improvisado a serviços públicos como água encanada e energia elétrica.

Como ocupam áreas de preservação permanente e mananciais, com solo contaminado ou terrenos públicos, estas comunidades permanecem ilegais por muito tempo, sem contar com ajuda do governo. Para compensar a falta de serviços básicos, ONG criou sistema para aquecimento de água que dispensa energia elétrica.

Os Aquecedores Solares de Baixo Custo (ASBC) foram desenvolvidos para serem construídos pelo usuário, com materiais industrializados comuns e baratos. A ONG Sociedade do Sol (SoSol), que criou o sistema e não registrou patente, oferece assessoria técnica para a montagem dos aquecedores, com transferência de conhecimento. Gustavo Cherubina, presidente da organização, diz que a tecnologia promove a autonomia do usuário e pode ser livremente reproduzida.

Esta é uma opção muito mais segura do que métodos populares para aquecer água com energia elétrica, como o "rabo quente". A técnica foi comum entre os moradores da favela Vila Nova Esperança, na zona oeste da cidade, que esperaram por mais de 50 anos até que o fornecimento de energia elétrica fosse regularizado. Até 2014, os consumidores “clandestinos” recorriam a "gatos", o que não oferecia energia suficiente para um chuveiro elétrico funcionar. Lia da Nova Esperança, como é conhecida a líder da associação de moradores, explica como usar o "rabo quente": "primeiro coloca a resistência num balde com água e depois na tomada, senão explode".

Lia conta com satisfação que está deixando de ser "clandestina para se tornar consumidora". Mas para os consumidores de baixa renda a formalização traz outro problema: o custo da tarifa. Por isso a associação de moradores estuda parceria com a SoSol para a instalação de aquecedores de baixo custo em 50 casas. Estes sistemas podem reduzir em até 80 por cento o consumo de energia elétrica em aquecimento de água e em até 50 por cento a conta final de energia.

Os aquecedores solares ainda são um projeto na Vila Nova Esperança, mas já se tornaram realidade em outra vizinhança pobre na RMSP. Entre 2013 e 2014 foram construídos, em esquema de mutirão, 11 exemplares no bairro de Tatetos, distrito de Riacho Grande, no município de São Bernardo do Campo.

Para construir um ASBC precisa-se de pelo menos duas pessoas com alguma experiência em construção civil. O sistema é composto por caixa d’água revestida com isolante térmico, como isopor e manta aluminisada, para não ficar exposta ao vento. O reservatório armazena a água aquecida pelo sol nos coletores, feitos com forro de PVC modular e sem vidro. O custo por sistema é de aproximadamente R$850.

Em casas precárias, como aquelas autoconstruídas em favelas, o custo de instalação pode subir dependendo das adequações estruturais necessárias para suportar o peso do novo reservatório de água. No caso de São Bernardo do Campo, a prefeitura e a deputada estadual Ana do Carmo (PT-SP) subsidiaram a instalação dos aquecedores. Para viabilizar os projetos, a SoSol mantém parceria com fornecedores dos componentes industrializados, como Braskem e Tecnoperfil.

Fotos: Gustavo Cherubina

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