Tecendo redes de cooperação na Maré, um dos maiores complexos de favelas do Rio

Andréa Azambuja, Coordenadora da Rede em Rio de Janeiro
Rio de Janeiro, 19 maio 2015

A Maré é um dos maiores complexos de favelas do Rio de Janeiro. Concentra aproximadamente 130 000 habitantes, distribuídos em 16 comunidades com características distintas, mas ligadas por uma lei que as reconhece como um só bairro, e também por uma história conjunta de lutas por permanência, pela carência de direitos fundamentais e pela necessidade de reinventar suas condições de existência. Esse todo multifacetado conquistou uma voz uníssona – potente e mais próxima do conjunto da cidade – em 2007, com o surgimento da Redes de Desenvolvimento da Maré, instituição da sociedade civil que articula pessoas e entidades para implementar projetos de transformação estrutural na região.

Visando o fortalecimento integral, foram inúmeras conquistas: espaços unificados de discussão, jornal, biblioteca, núcleo de pesquisas, de memória, cursos pré-vestibular, profissionalizantes, de idiomas e centros e festivais culturais, para citar alguns. Muito dos êxitos se devem a Edson Diniz, um dos criadores e diretores da instituição (ao lado de três diretoras), que cresceu no bairro com dificuldades e lá vem trabalhando desde os 14 anos, hoje com o título de doutor em Educação pela PUCRJ. A principal qualificação para liderar um movimento de desenvolvimento talvez seja essa: conhecer profundamente as necessidades que representa.

Edson organiza as ações centrais da Redes, é seu porta-voz em diversos contextos e enfrenta diariamente o desafio de associar moradores, lideranças locais, ONGs, empresas privadas e governo. Em entrevista para o URB.im, destacou as principais dificuldades encontradas: ao negociar com o Estado, é obrigado a combater comportamentos autoritários, indiferença e relações clientelistas (oferecimento de cargos na "máquina", postos de assessoria, "presentes", etc.); ao atuar na sociedade civil, precisa mobilizar a comunidade para causas coletivas e manejar uma miríade de interesses — "A falta de acesso das lideranças a maior qualificação educacional e política também atravanca muitos processos. Em geral, isso é compensado pela abnegação e pelo trabalho incansável, mas mesmo assim faz falta", completa.

Para superar obstáculos, Edson aprimorou uma habilidade política com mecanismos práticos. Em primeiro lugar, define sua agenda equilibrando atentamente dois tipos de interlocuções: "Com agentes sociais, as conversas têm um caráter de articulação — delimitação de demandas, debates e acúmulo de forças. Frente ao governo, minha atuação é voltada a garantir direitos, investimentos públicos e ações para benefício dos cidadãos — ocupo e amplio espaços de diálogo/pressão", esclarece. Independente do cenário, seus valores pessoais e objetivos determinam o limite, tudo que passar por cima deles tem que ser rejeitado – "assim mantenho o controle das diferentes situações", diz.

Prioridades determinam as pautas, formuladas e estudadas previamente a qualquer tipo de encontro (debates, reuniões, palestras...), partindo sempre das necessidades mais urgentes da Maré. Os compromissos assumidos são cobrados de forma coordenada por equipes organizadas de acordo com um organograma claro, elaborado após o estudo da estrutura ideal. Os funcionários são distribuídos em cinco setores — formação, mobilização social, comunicação, monitoramento & avaliação e administrativo financeiro — e trabalham em cinco eixos de atuação: desenvolvimento local, educação, arte & cultura, comunicação e segurança pública. Edson e as diretoras acompanham todas as esferas de perto, apontando caminhos e garantindo a transversalidade das ações.

As Redes de Desenvolvimento da Maré atende diretamente quase 4.000 indivíduos (hoje mais unidos em suas particularidades e generalidades), mobilizando diferentes segmentos da sociedade. Um desafio expressivamente mais fácil quando se trabalha de forma cooperativa, organizada, transparente, "cuidando das crianças e dos jovens, trocando experiências e conhecimentos, promovendo a mobilização, o protagonismo, a autonomia, a superação de estereótipos e a consciência de que a nossa missão individual é uma missão comum, nós somos o outro", sabiamente conclui.

Foto 1: Maré / Crédito: Jornal Extra. Foto 2: Jornal da Maré. Foto 3: Prova de seleção para curso pré-vestibular gratuito na Maré / Crédito: Rosilene Miliotti.

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