Curitiba não é mais a mesma

Andréa Azambuja, Coordenadora da Rede em Curitiba
Curitiba, 9 Julho 2015

Na década de 1970, Curitiba virou referência mundial em mobilidade ao implantar um sistema de transporte público inovador, o Bus Rapid Transit (BRT), projetado não apenas para transportar pessoas, mas para conduzir a urbanização. Funcionou por um tempo, só que as coisas mudaram.

Desde então, a população do município triplicou, e o transporte não acompanhou. Pelo contrário, está em crise, traduzida na escassez de ônibus, no aumento de tarifas (e carência de investimentos) e em intermináveis congestionamentos (não por coincidência, é a capital brasileira com maior número de carros por indivíduos), entre outros problemas.

Felizmente, o poder público não está sozinho para tomar as importantes providências que o contexto exige. Nos últimos anos, diversos grupos independentes emergiram na cidade para expor as prioridades da população e exigir participação no planejamento do futuro.

Um deles é o Mobiliza Curitiba, que reúne movimentos sociais, sindicatos, entidades, coletivos e cidadãos determinados a "acompanhar, propor e monitorar conteúdos e processos relativos ao Plano Diretor", instrumento que orienta a política do desenvolvimento citadino, que será revisado até dezembro. Em pouco mais de um ano, representantes do Mobiliza participaram de debates e audiências públicas, abordaram políticos, elaboraram emendas, propostas e lançaram a campanha #Mapeando Curitiba, um levantamento conjunto de áreas e espaços subutilizados que possam ser ocupados no futuro para evitar movimento pendularia.

Além dos 1,8 milhões de habitantes locais, boa parte dos 3,4 milhões de moradores dos municípios vizinhos trabalham e circulam por Curitiba diariamente, mas não existe uma ação articulada que projete o crescimento da região como um todo. O transporte público até incluí um programa "integrado", mas um embate entre o prefeito e o governador do estado tem minado o sistema, já deficiente anteriormente, complicando – e encarecendo – ainda mais a vida dos usuários.

Outro grupo que discute a integração metropolitana é o Observatório de Metrópoles, rede cooperativa de pesquisadores de urbanismo dedicada a compreender as aglomerações urbanas e a produzir pesquisas pensando o crescimento de forma interdisciplinar. Uma delas resultou no e-book Curitiba: transformações na ordem urbana, que investiga os processos de periferização e segregação socioespacial, propõe novos ângulos de análise e discute perspectivas para o futuro. Panorama esse totalmente dependente do transporte – como o jornal Gazeta do Povo publicou, mencionando o Observatório, "O adolescente que mora na periferia e não pode desfrutar dos equipamentos do município maior, que está a seu lado, não vai se desenvolver tanto quanto pode. O operário que passa mais de duas horas de seu dia num coletivo não vai frequentar as aulas de Educação de Jovens e Adultos à noite, porque é impossível suportar tamanha jornada".

A CicloIguaçu também se dedicada à mobilidade, mas àquela com duas rodas. Organização sem fins lucrativos de cicloativistas, foi fundada para "criar uma interface de diálogo construtivo com o poder público afim de consolidar o desenvolvimento de políticas de ciclomobilidade". Se no começo a interlocução foi "forçada" (através de intervenções, construção de praças, mapeamento de acidentes...), hoje é bilateral: a rede inclusive foi convidada para integrar o grupo técnico do Conselho Paranaense de Ciclomobilidade (Conciclo), para, ao lado de órgãos públicos estaduais, debater e fiscalizar o cumprimento de programas de incentivo ao uso da bicicleta.

É irônico como o ir e vir, emblema da liberdade, se tornou sinônimo de prisão até em Curitiba, famosa por seu transporte público durante tantos anos. A cidade só botará sua mobilidade nos trilhos quando soluções pontuais forem substituídas por um plano estratégico que contemple todo o sistema de circulação, inclusive as zonas metropolitanas, e se aproximar com precisão da realidade dos moradores – por isso a participação popular é tão importante nesse momento.

Foto: Urbs Curitiba, Dama Urbana.

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