Teleférico do Alemão: mobilidade urbana ou apropriação mercadológica?

Andréa Azambuja, Coordenadora da Rede em Rio de Janeiro
Rio de Janeiro, 17 Julho 2015

Em 2011, foi inaugurado, no Rio de Janeiro, o primeiro transporte de massa por cabos do Brasil. Aliando a aventura da locomoção suspensa à paisagem privilegiada, o Teleférico A, instalado no Complexo no Alemão — imenso agrupamento de favelas marcado pela violência e pelo tráfico de drogas — alterou o imaginário coletivo a respeito da região, transformada em local de visitação. Considerando o propósito do projeto — facilitar a mobilidade dos moradores —, no entanto, sua eficácia é questionável.

O Teleférico do Alemão, como é chamado, possuí seis estações; da primeira, integrada ao sistema ferroviário, à última, leva-se cerca de 20 minutos, metade do tempo utilizando-se outros meios de transporte. Todas oferecem serviços de utilidade pública (como bancos, correios, assistência social) e contêm sistema de aproveitamento de energia solar — tudo construído e operado com cerca de 70 por cento de mão de obra local. Apesar de outros aspectos sociais, econômicos, ambientais e urbanísticos positivos, entre os quais destaca-se também a gratuidade — os residentes têm direito a duas viagens por dia —, nada parece justificar o investimento colossal, de cerca de R$ 2 020 000 000.

Segundo pesquisa do IPEA, fundação pública federal vinculada à Presidência da República, apenas 1/3 da capacidade do teleférico é explorada. Apesar de ter sido projetado para transportar 30 mil passageiros diariamente, apenas 11 mil o utilizam, 25 por cento deles visitantes — ou seja, menos de 13 por cento dos 69 mil habitantes do Alemão aproveitam o transporte, mesmo sem precisar pagar passagem.

A localização das paradas, no topo de morros — sendo que o bairro, 1 770 631,36 m² de declives, escadarias e deslizamentos, não possui estrutura de circulação interna — é a principal causa da subutilização. Sem linhas de ônibus de conexão, a maioria da comunidade continua utilizando os serviços anteriores (que criou por conta própria), como moto-táxis e kombis apenas. Afinal, não faz sentido pagar para subir o morro, para então descê-lo.

Ainda de acordo com o IPEA, "não se tomou conhecimento da existência sequer de uma pesquisa básica de demanda. Além disso, as pesquisas de mobilidade da região encontram-se desatualizadas, impossibilitando seu uso". Em pesquisa direta com residentes para tese de Mestrado em Engenharia Urbana e Ambiental da PURC-Rio, a engenheira Lídia Duarte Santos não apenas confirmou a desinformação, como apurou novos dados: 76 por cento dos entrevistados preferiam que o dinheiro tivesse sido aplicado em outras áreas, como educação, saúde e saneamento. O Complexo do Alemão tem o IDH mais baixo da capital e questões mais urgentes que um teleférico para lazer, e os moradores bem sabem disso — mas o governo preferiu ignorar.

Até os benefícios relacionados ao turismo — provavelmente o único ponto de concordância entre poder público e cidadãos — são questionáveis. Em geral, os passeios ao complexo se limitam à viagem nas gôndolas, sem qualquer interatividade; os visitantes, então, não se aproximam de fato da realidade, o que poderia ajudar a derrubar estereótipos, mas se afastam ainda mais — a conhecida espetacularização da favela. Como mostra uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas sobre o morro da Dona Marta, ainda, o turista gasta pouco no morro, no máximo R$ 5,00. No Alemão, onde os índices de violência aumentaram desde 2011, deve ser ainda menos.

Ao projetar um serviço público milionário, o mínimo a se fazer é entender as demandas da população. No caso do Teleférico do Alemão, o que era para ser um projeto de mobilidade parece mais uma apropriação mercadológica, mais uma área de exploração comercial baseada numa falsa ideia de progresso, na humanização pelos olhos externos. E ser um ponto de "entretenimento" no subúrbio definitivamente não era prioridade.

Em 2011, foi inaugurado, no Rio de Janeiro, o primeiro transporte de massa por cabos do Brasil. Aliando a aventura da locomoção suspensa à paisagem privilegiada, o Teleférico A, instalado no Complexo no Alemão — imenso agrupamento de favelas marcado pela violência e pelo tráfico de drogas — alterou o imaginário coletivo a respeito da região, transformada em local de visitação. Considerando o propósito do projeto — facilitar a mobilidade dos moradores —, no entanto, sua eficácia é questionável.

O Teleférico do Alemão, como é chamado, possuí seis estações; da primeira, integrada ao sistema ferroviário, à última, leva-se cerca de 20 minutos, metade do tempo utilizando-se outros meios de transporte. Todas oferecem serviços de utilidade pública (como bancos, correios, assistência social) e contêm sistema de aproveitamento de energia solar — tudo construído e operado com cerca de 70 por cento de mão de obra local. Apesar de outros aspectos sociais, econômicos, ambientais e urbanísticos positivos, entre os quais destaca-se também a gratuidade — os residentes têm direito a duas viagens por dia —, nada parece justificar o investimento colossal, de cerca de R$ 2 020 000 000.

Segundo pesquisa do IPEA, fundação pública federal vinculada à Presidência da República, apenas 1/3 da capacidade do teleférico é explorada. Apesar de ter sido projetado para transportar 30 mil passageiros diariamente, apenas 11 mil o utilizam, 25 por cento deles visitantes — ou seja, menos de 13 por cento dos 69 mil habitantes do Alemão aproveitam o transporte, mesmo sem precisar pagar passagem.

A localização das paradas, no topo de morros — sendo que o bairro, 1 770 631,36 m² de declives, escadarias e deslizamentos, não possui estrutura de circulação interna — é a principal causa da subutilização. Sem linhas de ônibus de conexão, a maioria da comunidade continua utilizando os serviços anteriores (que criou por conta própria), como moto-táxis e kombis apenas. Afinal, não faz sentido pagar para subir o morro, para então descê-lo.

Ainda de acordo com o IPEA, "não se tomou conhecimento da existência sequer de uma pesquisa básica de demanda. Além disso, as pesquisas de mobilidade da região encontram-se desatualizadas, impossibilitando seu uso". Em pesquisa direta com residentes para tese de Mestrado em Engenharia Urbana e Ambiental da PURC-Rio, a engenheira Lídia Duarte Santos não apenas confirmou a desinformação, como apurou novos dados: 76 por cento dos entrevistados preferiam que o dinheiro tivesse sido aplicado em outras áreas, como educação, saúde e saneamento. O Complexo do Alemão tem o IDH mais baixo da capital e questões mais urgentes que um teleférico para lazer, e os moradores bem sabem disso — mas o governo preferiu ignorar.

Até os benefícios relacionados ao turismo — provavelmente o único ponto de concordância entre poder público e cidadãos — são questionáveis. Em geral, os passeios ao complexo se limitam à viagem nas gôndolas, sem qualquer interatividade; os visitantes, então, não se aproximam de fato da realidade, o que poderia ajudar a derrubar estereótipos, mas se afastam ainda mais — a conhecida espetacularização da favela. Como mostra uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas sobre o morro da Dona Marta, ainda, o turista gasta pouco no morro, no máximo R$ 5,00. No Alemão, onde os índices de violência aumentaram desde 2011, deve ser ainda menos.

Ao projetar um serviço público milionário, o mínimo a se fazer é entender as demandas da população. No caso do Teleférico do Alemão, o que era para ser um projeto de mobilidade parece mais uma apropriação mercadológica, mais uma área de exploração comercial baseada numa falsa ideia de progresso, na humanização pelos olhos externos. E ser um ponto de "entretenimento" no subúrbio definitivamente não era prioridade.

Fotos: Folha de São Paulo, G1.

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