Os refúgios de migrantes em Curitiba

Andréa Azambuja, Coordenadora da Rede em Curitiba
Curitiba, 18 agosto 2015

Segundo a Agência da ONU para Refugiados, em 2014, 86 por cento dos refugiados do mundo (12,4 milhões de pessoas) foram acolhidos em países em desenvolvimento. Destes, ao menos 8.302 desembarcaram no Brasil, número que não incluí os haitianos, que, estima-se, totalizaram entre 15 e 20 mil indivíduos.

Com o 5º IDH mais alto, o Paraná é o quarto estado mais procurado por aqueles que, com uma coragem sobrenatural, fogem de guerras, perseguições, desastres climáticos e situações similares na esperança de construir uma vida digna no país tropical. A maioria vai para Curitiba, considerada uma cidade segura e tranquila, mas onde o preconceito ainda é muito forte, a falta de empregos assusta e uma estrutura de resguardo ainda está sendo esboçada.

Uma das instituições mais antigas neste tipo de atendimento é a Pastoral do Migrante, vinculada à Igreja Católica, que recebe e orienta migrantes há mais de uma década. Em sede própria, diariamente cadastra os novos moradores, providencia documentos, faz encaminhamentos ao mercado de trabalho, presta assessoria jurídica e todo tipo de ajuda emergencial. E vai além: escuta as trajetórias individuais, distribui palavras de otimismo, abriga, produz eventos interculturais, celebra momentos significativos (aniversários, casamentos...) e promove a tolerância, além de pressionar o governo por políticas públicas. No último ano, a Pastoral protegeu 1,4 mil pessoas, com recursos próprios, doações de pessoas físicas e trabalho voluntário.

Inaugurada em 2009 por iniciativa da BS Colway Pneus e da Secretaria Estadual da Educação, o Vila da Cidadania – centro onde são oferecidas atividades pedagógicas extracurriculares para alunos da rede pública de ensino – também está se delimitando como núcleo de resguardo a estrangeiros. Lá, no último mês, dezenas de migrantes enviados pelo governo do Acre – que muitas vezes chegam apenas com a roupa do corpo, após terem sido saqueados e explorados ao longo da jornada – foram recebidos e abrigados, ainda que de forma provisória. Além de receberem auxílio de professores e voluntários para localizarem parentes, os homens e mulheres, principalmente haitianos, participam de cursos de língua portuguesa, dão entrada na solicitação de carteira de trabalho, recebem instrução profissional e conseguem, enfim, descansar e se sentir mais seguros.

Outra iniciativa, que vale para todo o território nacional, é o Helping Hand, site que reúne nomes e contatos de entidades de amparo, como templos religiosos, consulados e escolas, em cinco idiomas: inglês, espanhol, francês, árabe e português. O projeto foi idealizado e executado por cinco amigas de 17 e 18 anos do Rio Grande do Sul como um trabalho do curso técnico em informática; com a ajuda de amigos, elas coletaram dados e fizeram o mapeamento inicial, que pode ser alimentado por qualquer associação ligada à temática migratória.

Atualmente, 14 órgãos de Curitiba estão cadastrados, entre eles o Instituto de Defesa da Classe Trabalhadora (assistência jurídica) e a Cáritas Brasileira (acolhimento e integração). O Help in Hand não tem suporte financeiro, mas pode receber doações, repassadas às organizações cadastradas – apenas 5 por cento do arrecadado fica com a equipe, para custear o domínio do site e a manutenção do aplicativo para celular.

Enquanto padres, adolescentes, homens e mulheres de todas as idades se articulam para valorizar e inserir refugiados social, econômica e culturalmente – cientes da complexa situação que eles enfrentam e de que precisam de apoio efetivo para se tornarem autossuficientes e encontrarem oportunidades para seguir o caminho de uma nova vida, justa e igualitária – o governo também toma atitudes. Uma delas foi a criação do Comitê Estadual para Refugiados e Migrantes, e a recente assinatura de um Protocolo de Intenções para trazer ao país refugiados colombianos que vivem no Equador – resta saber quando sairão do papel.

Foto 1: Pastoral do Migrante em Curitiba / Créditos: Equipe Fenatracoop. Foto 2: Junior Nelson, haitiano enviado pelo governo do Acre a Curitiba, na Vila da Cidadania / Créditos: Henry Milleo, Gazeta do Povo.

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