Como São Paulo está ajudando pessoas transgênero a deixar prostituição

Felipe Villela, Coordenador da Rede em São Paulo
São Paulo, 11 agosto 2015

Para quem abandonou a escola antes de terminar o Ensino Fundamental é difícil conseguir um emprego. Imagine alguém que deixou de estudar porque foi espancada pelos outros alunos, rejeitada pela família, obrigada a deixar sua cidade natal e frequentemente hostilizada apenas por andar na rua.

Esta é a história de vida que leva muitas pessoas transgênero a se prostituir. Tudo isso no país com o maior número absoluto de assassinatos de trans, segundo a Transgender Europe.

Em fevereiro de 2015, no entanto, a cidade de São Paulo começou a ajudar algumas dessas pessoas a mudar de vida, sem que precisem deixar de ser como são.

Desde então, 100 participantes do Projeto TransCidadania voltaram a estudar. Além de vagas em escolas para adultos, a prefeitura oferece aulas de Cidadania e Direitos Humanos, tratamento hormonal, vagas em abrigo municipal exclusivo para trans, e mais bolsa mensal de R$ 827,40.

A ideia das bolsas surgiu da constatação de que a maioria das pessoas transgênero não poderia voltar para a escola por falta de dinheiro. Segundo a Coordenação de Políticas para LGBT da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania, responsável pelo projeto, a única fonte de renda da maior parte das participantes era a prostituição. Mesmo recebendo bolsas, muitas continuam se prostituindo, ainda que tenham diminuído o número de programas.

Entre as 100 pessoas inscritas há 52 travestis, 43 mulheres e cinco homens trans. A maioria tem entre 31 e 40 anos e 63 por cento são negras ou pardas. Com relação às condições de moradia, 85 por cento vivem em hotéis ou na casa da cafetina, seis por cento em abrigos, cinco por cento em edifícios ocupados por movimentos de moradia e quatro por cento dormem na rua.

Até agora, apenas 10 pessoas abandonaram o projeto sem justificativa. Além dessas, uma pessoa saiu porque conseguiu emprego, três foram presas e uma transexual foi assassinada a tiros durante um programa sexual.

Morrer baleada é o destino fatal da maior parte das pessoas transgênero assassinadas no mundo. Em segundo lugar vem esfaqueamento, e em terceiro espancamento. Juntas, estas causas de morte representam aproximadamente 66 por cento do total de assassinatos. Entre as vítimas, 65 por cento eram prostitutas e 29 por cento tinham entre 30 e 39 anos. Estes e outros dados aparecem no Monitoramento de Assassinatos Trans 2015, relatório realizado pela ONG Transgender Europe.

A expectativa das participantes do TransCidadania é vencer estas estatísticas. Com melhor educação, 54 por cento acham que conquistarão um emprego formal, 23 por cento esperam sofrer menos discriminação e 23 por cento pretendem fazer faculdade.

Diante alta taxa de adesão do programa, a prefeitura anunciou que estuda expandir o número de vagas.

Fotos: Municipal Secretariat of Education.

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