O Rio de Janeiro aglutinador

Andréa Azambuja, Coordenadora da Rede em Rio de Janeiro
Rio de Janeiro, 20 novembro 2015

A tendência das grandes metrópoles é aglutinar outros centros urbanos, e o Rio de Janeiro não foge à regra. Segundo o IBGE, Instituto Brasileiro de Pesquisa e Geografia, seu arranjo populacional engloba 11,9 milhões de pessoas, distribuídas em 21 municípios, num intenso fenômeno de urbanização e globalização que cada vez assume formas mais complexas, não apenas seguindo tendências que já se verificavam, mas totalmente distintas. Assim, em termos de políticas públicas, não se pode pensar de forma isolada, mas em ações integradas e inovadoras entre cidades – o que exige pesquisas e trocas constantes.

É aí que entra o trabalho do Observatório das Metrópoles, que reúne 159 pesquisadores e 59 instituições universitárias (programas de pós-graduação), governamentais (estaduais e municipais) e não-governamentais, sob a coordenação geral do IPPUR, Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Com sede oficial na capital carioca, o grupo vem se dedicando desde 1996 a pesquisar, de maneira sistemática e interdisciplinar, as metrópoles brasileiras e os reajustes estruturais e produtivos realizados, com foco na avaliação de seus impactos sociais, territoriais e políticos – subsídio indispensável ao poder público e interessados para dirigir novas políticas de desenvolvimento.

O trabalho da organização se estende, ainda, à articulação da academia com o governo e a sociedade civil e, também, à formação de lideranças locais, para que possam intervir diretamente na gestão administrativa de suas cidades. Com o apoio da FASE, Federação dos Órgãos para a Assistência Social e Educacional, da Fundação Ford, da Fundação Rosa Luxemburgo e da Actionaid, seminários, workshops e cursos de capacitação de conselheiros municipais – nos quais são discutidos temas como segregação residencial, violência e saneamento – são realizados regularmente desde 1999, em toda a Baixada Fluminense.

De modo geral, o Observatório se dedica a quatro linhas de pesquisa: "Metropolização, Dinâmicas Intrametropolitanas e o Território Nacional", "Governança Urbana, Cidadania e Gestão das Metrópoles", "Dimensão Sócio-Espacial da Exclusão/Integração" e "Monitoramento da Realidade Metropolitana e Desenvolvimento Institucional". Entre seus produtos (relatórios, manuais, livros, apostilas) mais recentes – todos disponíveis gratuitamente – está o livro "Rio de Janeiro: Transformações na Ordem Urbana", uma análise completa das mudanças ocorridas de 1980 a 2010 e de seus padrões de segregação.

Um dos aspectos que "Transformações..." aborda são as consequências do ciclo de expansão da economia do petróleo, que continua reconfigurando radicalmente todo o estado, provocando booms populacionais em diversas cidades. É o caso de Macaé, centro das operações da Petrobrás desde a década de 1970, que desde então lida com o problema da ocupação de áreas de risco, entre outras manifestações de sua nova pobreza. Em contextos como este, por exemplo, as análises do Observatório são tão imprescindíveis (as soluções precisam ser estratégicas, efetivas e permanentes), quanto inevitáveis: dada à qualidade e especificidade das informações, serviram de suporte para o desenvolvimento da Política de Urbanização de Assentamentos Precários e para o programa habitacional Minha Casa Minha Vida, de cunho federal.

Talvez o maior trunfo do Observatório seja a multidisciplinaridade. Suas pesquisas, baseadas no monitoramento incessável das políticas públicas, integram áreas distintas do saber, como Sociologia, Arquitetura, Geografia e Ciências Políticas, mas com uma base única de dados. A cooperação dirigida também marca sua atuação executiva, que incorpora atores de diversas esferas e localidades trabalhando para o mesmo fim: a busca de cidades mais justas e democráticas. Faz sentido. Afinal, novas formas de exclusão não se configuram de maneira isolada, mas como resultado de um organismo unificado de exploração. E entendê-lo em sua complexidade, assim como trabalhar em conjunto, é indispensável para que suas facetas mais desastrosas possam ser evitadas.Close.

Fotos: 1. divulgação Terra de Direitos; 2. Desocupação em Macaé – divulgação O Debate.

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