O clima de proteção à natureza no Brasil

Andréa Azambuja, Coordenadora da Rede em Curitiba
Curitiba, 30 dezembro 2015

Este mês, líderes de 195 países estão reunidos em Paris na COP21, a Conferência do Clima da ONU, para estabelecer diretrizes e firmar um acordo mundial de contenção ao aquecimento global – decisões que afetam a vida de todos, mas passam despercebidas pela maioria. No Brasil, as negociações estão mais perto dos interessados graças ao Observatório do Clima (OC), uma rede de 30 ONGs de perfil socioambientalista que ministrou oficinas de capacitação de jornalistas para noticiarem a conferência, presencial ou remotamente, e está fazendo uma cobertura especial do evento. O papel do Observatório, no entanto, vai além da Comunicação.

Formado em 2002, o OC não apenas acompanha, mas influencia negociações nacionais, internacionais e posições do governo brasileiro relacionadas à mudança climática. Numa ação coordenada entre as filiadas, promove debates e conferências que colocam em diálogo atores da sociedade civil, da academia, da iniciativa privada e do poder público para que sejam definidos critérios de sustentabilidade social, étnica, cultural e econômica – indicadores para nortear tanto programas locais, quanto políticas governamentais. Além disso, propõe ações específicas, pressiona as autoridades para implementá-las, monitora sua execução e estimula o protagonismo da sociedade com capacitações, treinamentos e com a disseminação de informação. Este ano, por exemplo, mobilizou cidadãos para o comparecimento ao Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas (FBMC), reunião organizada pelo governo federal para submeter à consulta pública o Plano Nacional de Adaptação à Mudança do Clima (PNA) – instrumento que, agora, está em cheque na COP.

Muitas das integrantes do OC são ligadas à iniciativa privada. É o caso da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza – que participa da coordenação geral da rede (o engenheiro florestal André Ferretti, membro observador da COP, é coordenador de ambas) –, criada em 1990 pelo Grupo Boticário, empresa paranaense de cosméticos com escritórios principais em Curitiba. Hoje, a organização figura entre as principais financiadoras de programas de conservação ambiental no país, já tendo apoiado 1.436 projetos – num investimento de aproximadamente 10,6 milhões de dólares –, além de tocar empreendimentos próprios, que incluem a preservação de 11.000 hectares de Mata Atlântica e Cerrado (os dois biomas mais ameaçados do país), a premiação de boas práticas do uso de solo e ações de sensibilização e cidadania.

A Fundação atua, ainda, numa área específica nomeada Mudanças Climáticas, focada no custeio de pesquisas científicas (desde 2011, já foram dispendidos mais de um milhão de reais) e, junto ao OC, na pressão de líderes municipais, estaduais e federais. Entre as últimas realizações, vale destacar o estudo "Adaptação Baseada em Ecossistemas: oportunidades para políticas públicas em mudanças climáticas," estratégia em que "os serviços ambientais oferecidos pelos ecossistemas conservados, bem como da sua biodiversidade, são utilizados como ferramentas para auxiliar comunidades a se adaptarem aos efeitos negativos das alterações do clima, como secas e enchentes." O documento foi apresentado ao Ministério do Meio Ambiente e acabou sendo empregado na elaboração do Plano Nacional de Adaptação às Mudanças do Clima – contribuição relevante para todas as esferas da sociedade, especialmente as mais vulneráveis.

A COP 21 é, sobretudo, um evento centrado no desenvolvimento econômico. Ironicamente, é provável que esta seja também a principal motivação daqueles com mais poder para tomar providências relevantes em prol da sustentabilidade – especialmente quando juntam forçam. Enquanto vivermos no capitalismo, talvez não exista outra alternativa. Neste contexto, é importante reconhecer a cultura empresarial que investe em iniciativas relevantes e em profissionais genuinamente preocupados com a conservação da biodiversidade e dos recursos naturais – que fazem mesmo diferença. Assim como a COP pode fazer. É esperar, para ver. Close.

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