Sustentabilidade e responsabilidade em rede

Andréa Azambuja, Coordenadora da Rede em Rio de Janeiro
Rio de Janeiro 7 dezembro 2015

A recente catástrofe socioambiental em função da queda de duas barragens em Minas Gerais ilustra o capitalismo: frente ao lucro, recursos humanos e ambientais sempre serão desprezados. Explorada brutalmente especialmente no século XX, a Mata Atlântica, que originalmente se estendia por 17 estados brasileiros, é um emblema anterior desta realidade: apesar da qualidade de vida de aproximadamente 70% da população depender de sua preservação, apenas 7,84% do bioma perduram no país. Ambos os casos representam também o modus operandi do sistema da mais valia: primeiro causa-se o estrago, para então remediá-lo.

Embora eventos como este sejam campos férteis para a retórica, a advocacia e muitas vezes tenham resultados inócuos – como o Protocolo de Kyoto, que o novo acordo irá substituir – algumas organizações os utilizam como armas
em suas batalhas particulares. É o caso da Rede de ONGS da Mata Atlântica (RMA), que, assim como a COP 21, foi idealizada durante a Cúpula da Terra da ONU, ou Rio+20.

A RMA é uma organização coletiva que representa mais de 300 entidades de proteção à Mata Atlântica – uma teia de mobilização, ação política coordenada e apoio mútuo. Estruturada em torno de uma Assembleia Geral e de uma Coordenação Nacional, articula e monitora ações junto aos poderes públicos, toma a frente de denúncias e casos emergenciais, replica modelos de conservação, orienta ONGs em fase de criação, desenvolve mecanismos de participação social e oferece suporte operacional em geral (da divulgação de associados ao compartilhamento de documentos). Além disso, representa os interesses das filiadas em discussões em nível federal, em eventos internacionais (como a COP), acompanha de perto as decisões e elabora estratégias para aplicá-las, especialmente para pressionar medidas governamentais.

Uma das 26 ONGs do Rio de Janeiro que integram a RMA é o Instituto Terra de Preservação Ambiental (ITPA), com sede na capital, que atua em três eixos: Clima, Biodiversidade e Águas; Geração de Trabalho e Renda; e Mobilização Social e Políticas Públicas – após implementar projetos demonstrativos, busca vinculá-los a políticas setoriais. Entre inúmeras iniciativas, passando por crédito de carbono, saneamento básico, combate a incêndios e reflorestamento, realiza importantes programas de Agroecologia.

Um exemplo é o Agricultura Familiar em Faixas de Dutos, implementado em 2009 na região metropolitana com o auxílio da Transpreto, que dispôs mais de 100.000 m2 de hortaliças orgânicas nas faixas de dutos, plantadas e administradas por famílias dos arredores, muitas delas então abaixo da linha de pobreza. Os produtos, frutos de um modelo que preserva as áreas naturais da mata (a agricultura é expressiva vilã no desmatamento), passaram a abastecer escolas, feiras e centenas de famílias da região, agora com fonte de renda fixa. A evolução do projeto foi tanta, que hoje ele é autogerido pela Cooperativa de Agricultura Familiar e Produtos Orgânicos UNIVERDE, sem incentivos ou apoio técnico, nem para a capacitação de novos profissionais.

O desmatamento da MA caiu 24% de 2013 a 2014, em comparação ao período de 2012 a 2013, e apresenta índices favoráveis há alguns anos. Certamente RMA e ITPA foram e são essenciais para isso, pois a atuação em rede é tão importante quanto a criação de leis e regras que determinem ganhos ambientais e sociais. Só assim é possível entender os problemas e as possibilidades reais e, consequentemente, trabalhar nas suas soluções. Aí está o potencial da COP21 – desde que seja levada a sério. Close.

Photo: Yvon Maurice

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