A casa no caminho da liberdade

Andréa Azambuja, Coordenadora da Rede em Curitiba
Curitiba, 19 janeiro 2016

É fácil notar que o número de moradores de rua de Curitiba aumentou nos últimos tempos. E parece ter aumentado muito: segundo os movimentos de luta por direitos sociais, o incremento foi de 60% em sete anos, passando de 2.800 pessoas em 2008 para cerca de 4.500 em 2014 – uma progressão incomparável ao crescimento total de habitantes da cidade, que não chegou a 2% no mesmo período.

Reconhecida pela inovação (fama que mantém, mesmo a duras críticas, desde o lançamento de seu prestigiado sistema integrado de transporte público, na década de 1970), a capital paranaense dá amostras de que não perdeu a capacidade de reação criativa – e uma de suas grandes e recentes novidades é destinada aos sem-teto. Trata-se do Condomínio Social, iniciativa inédita no país que se estabelece como a última etapa no atendimento àqueles em situação de rua antes da retomada de sua autonomia.

O Condomínio Social é uma casa comunitária que hospeda até 70 (então) desabrigados, que podem permanecer lá por até dois anos. São 18 apartamentos com camas, guarda-roupas, cômodas e banheiros, e espaços de convivência como cozinha comunitária, biblioteca e área verde ao ar livre. Todas as regras internas são decididas em conjunto por uma equipe técnica da Fundação de Ação Social (FAS) – órgão municipal responsável pela gestão da assistência social e coordenador do projeto – e pelos próprios residentes, também encarregados da organização de seus quartos e de todo o espaço: em sistema de escala, são eles que fazem a manutenção e a limpeza do imóvel, assim como o preparo das refeições do grupo.

O FAS seleciona quem entra na república de acordo com o histórico de passagens por outros instrumentos de atendimento da instituição, como albergues e os Centros POP, onde são oferecidos serviços como banhos e alimentação. Por estes recursos terem perfil mais paliativo, a regressão às ruas muitas vezes é automática – mas alguns indivíduos criam vínculos, participam das atividades recorrentemente, demonstram mais preparo e vontade de se recuperar e, então, são encaminhados.

Baseada na autogestão, a experiência é uma ruptura na trajetória destas pessoas, que assumem responsabilidades e recuperam habilidades perdidas. Além do lar, cada um recebe acompanhamento individual diário, apoio psicológico, assessoria para estudar, para encontrar emprego e auxílio para dar entrada na documentação necessária para financiar uma propriedade definitiva através da Cohab – ou seja, é abraçado com uma estrutura completa para reconstruir sua vida.

Após pouco mais de um ano em caráter de experiência, em outubro de 2015 o Condomínio Social teve a homologação e o lançamento de um estatuto oficial, também cocriado por inquilinos e funcionários da FAS. O documento define regulações que vão desde novos ingressos até desligamentos, passando pelas sanções aplicáveis em caso de descumprimento das normas. Posse ou consumo de drogas ilícitas ou álcool nas dependências, por exemplo, incorrem em desligamento automático.

A quantidade de adultos, jovens e crianças nas ruas é assustadora e crescente, inclusive em países desenvolvidos. Grande parte destas pessoas tinha família, emprego, propósito, mas perderam tudo por causa das drogas – e dariam tudo para se reabilitar, só precisam de ajuda especializada. O diferencial do Condomínio Social é a amplitude e o perfil deste suporte, que vai além do auxílio provisório e aborda de forma integrada o resgate de vínculos familiares, o preparo psicológico e a capacitação. Que desafia a indiferença e o preconceito. Que recupera a autoestima do ser humano e o recoloca na posição de protagonista – o que é obrigação de qualquer cidade que queira falar em equidade, em desenvolvimento, em sustentabilidade. Um exemplo a ser seguido. Close.

Foto: Daniel Caron/FAS

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