Saúde portátil

Andréa Azambuja, Coordenadora da Rede em Rio de Janeiro
Rio de Janeiro 4 janeiro 2016

Segundo o Ministério da Saúde, as doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs), como diabetes e hipertensão, causam 72% das mortes no Brasil. Este índice representa especialmente as camadas mais pobres da população, que comumente moram em favelas (16 milhões de pessoas) e têm acesso restrito a serviços de saúde: o tempo médio de espera para atendimento primário na rede pública é de quatro meses – caso seja necessário algum exame, são mais três meses para realizá-lo e, depois, mais quatro para apresentá-lo ao médico –, e hospitais costumam ser muito distantes.

No Rio de Janeiro, onde mais de dois milhões de pessoas vivem em assentamentos informais – se unificados, formariam a 7ª maior cidade do país – o problema se agrava: por urgências médicas, muitos moradores têm que apelar para a ajuda de líderes do tráfico e acabam devendo favores e, então, vinculando-se ao crime, mesmo contra vontade. Esta prática, no entanto, deve diminuir, graças à Plataforma Saúde, projeto que oferece serviços de saúde utilizando tecnologias móveis.

A proposta da Plataforma Saúde é atuar de forma preventiva, com foco na população carente em áreas de difícil acesso. Para isso, leva serviços de qualidade, integrados e sustentáveis, que identificam problemas antes dos sintomas aparecerem e antecipam as DCNTs, a zonas quase esquecidas. Seu principal produto, o Saúde Agora, consiste numa avaliação geral do paciente – incluindo testes de glicemia, colesterol e aferição de pressão arterial – e de seu estilo de vida, com atenção especial para os fatores de risco, como o tabagismo, o consumo nocivo de álcool e o sedentarismo.

O resultado dos exames é entregue no final do processo, que dura apenas 20 minutos, impresso em um sistema de cores de trânsito, uma linguagem universal que facilita o entendimento por pessoas analfabetas. O usuário recebe, ainda, login e senha, para ter acesso online aos dados sempre que precisar – tudo fica armazenados na "nuvem" –, e são desenvolvidas ações pontuais de conscientização e acompanhamento, como o envio de alertas via SMS.

Este serviço não é gratuito, mas acessível: custa de R$5,00 a R$ 25,00 no total. Além do baixo valor e da mobilidade, chama atenção o atendimento: os profissionais interagem de forma mais acolhedora e horizontal com os usuários, nos locais onde eles moram (evitando que tenham que despender horas em locomoção ou filas), com linguagem acessível e apresentam resultados instantaneamente, o que aumenta a influência de suas palavras. A inteligência de dados do sistema facilita ainda mais o entendimento, favorecendo a autogestão dos doentes crônicos e permitindo que cada um tenha controle sobre o seu histórico clínico – informações acessíveis a todos os enfermeiros, para que sempre possam monitorar progressos individuais.

A ideia da Plataforma Saúde surgiu em 2014, no Startup Weekend Rio Favela, o primeiro evento de empreendedorismo do mundo realizado numa favela. A partir de demandas vindas diretamente da comunidade, dois jovens empresários procuraram médicos, gestores e especialistas, conceberam o formato, executaram o protótipo e, em tempo recorde, começaram a resolver um dos problemas nacionais mais complexos – o que os governos tentam, mas não conseguem fazer.

Se a iniciativa não supre a necessidade da construção de hospitais e postos de atendimento completos, atua no problema da saúde pública de forma eficiente, ágil, econômica, digna, democrática, sustentável. Uma abordagem inovadora, que pode servir de modelo no mundo todo (mais da metade das mortes globais se devem às DCNTs) – e que foi reconhecida com inúmeros prêmios, como o de Empresa Mais Criativa das Américas pelo BID EUA, o "Play to Win Award" – Prêmio 3M de Empreendedorismo e o Prêmio de Inovação Social TIC Américas Panamá, além de ter sido reconhecida pela ONU em relatório recente de mercados inclusivos. Close.

Foto: Tales Gomes, criador do Plataforma Saúde. Crédito: Espaço Nave.

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