Pesquisa pioneira sobre vida nas ruas é feita por população de rua

Felipe Villela, Coordenador da Rede em São Paulo
São Paulo, 1 fevereiro 2016

Primeira Pesquisa Social Participativa da População de Rua, feita pelos próprios sem-teto, chega ao fim após um ano com resultados que servirão de base para elaboração do Plano Municipal da População de Rua. Para saber como é a vida nas ruas e em equipamentos públicos de assistência social, foram feitas quase 170 entrevistas e mais de 500 conversas informais. O relatório final deve ser entregue este mês, mas o URB.im adianta algumas conclusões da pesquisa.

Acomodados num divã, os psicólogos Jorge e Emilia Broide, da SUR Clínica e Intervenção Social, explicam como é difícil sair do consultório para enfrentar situações sociais críticas na rua. Numa noite, quando precisaram chamar o carro de um abrigo municipal para socorrer um sem-teto, os coordenadores do levantamento inédito se depararam com uma Kombi com bancos forrados com sacos de lixo.

A pesquisa foi encomendada pelo Comitê PopRua, ligado à Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania. Para alguns integrantes do grupo, formado por representantes da sociedade civil e de órgãos públicos, os quatro censos realizados desde 2000 pela Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social estariam subdimensionados. Em 2015, São Paulo teria quase 16 mil pessoas vivendo nas ruas, segundo números oficiais.

Entre os críticos, padre Júlio Lancellotti, vigário do povo da rua, acusa recenseadores de temerem abordar sem-teto e de ignorarem, por exemplo, quem estava abrigado em ocupações de moradia, detido ou internado em clínicas de reabilitação.

O Comitê PopRua também ajudou a selecionar os pesquisadores sem-teto. Durante dois meses, quase 40 pessoas se encontraram regularmente para dinâmicas de "escuta territorial", localizando num mapa e descrevendo os lugares da cidade mais relevantes para quem vive na rua. Os 10 participantes mais "interessados e talentosos" foram contratados pela SUR para trabalhar 20h semanais, com salário líquido de R$ 500,00, mais vale-transporte e alimentação. Por precaução, três suplentes também foram selecionados.

Durante os oito meses seguintes, os pesquisadores cotidianamente deixavam suas camas em albergues, ocupações ou malocas nas calçadas para participar de grupos psicanalíticos, de planejamento do trabalho de campo e de técnicas de entrevista com jornalistas. Depois, voltavam a circular pela rua para pesquisar.

Segundo Jorge Broide, a própria vida dos pesquisadores sem-teto foi objeto de estudo. Ficou clara, por exemplo, a dificuldade dos que estavam em transição para deixar a rua se adequarem à disciplina de um emprego regular. Alguns às vezes “batiam a nave”, sumindo para consumir drogas como crack, cocaína ou álcool até serem resgatados pelos colegas.

"Quando o cara sai da rua perde tudo: comida, psicólogo, abrigo. Então volta para a situação de pobreza de onde saiu", explica Emilia Broide. "Falta política para este 'entre'". Por isso, trabalhos alternativos, como a própria pesquisa, podem ser “portas de saída” da rua mais eficazes do que programas tradicionais de emprego e renda.

Para o casal Broide, também faltam políticas específicas para egressos do sistema penitenciário, já que ex-detentos costumam levar códigos de conduta da cadeia para as ruas. Assistentes sociais que trabalham em abrigos dizem ser tratados como carcereiros por alguns usuários. Admitiram, ainda, que o serviço prestado é prejudicado pelo medo de agressões, reiterado por constantes ameaças.

Dos 13 pesquisadores sem-teto selecionados inicialmente apenas sete chegaram ao fim do trabalho. Os que ficaram têm agora a opção de se vincular ao Programa de Oportunidades de Trabalho (POT) da prefeitura e receber bolsa por um ano para desenvolver projetos de economia solidária.

Foto: Caio Palazzo for Ponte

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