Praça de Bolso do Ciclista

Andréa Azambuja, Coordenadora da Rede em Curitiba
Curitiba, 18 Março 2016

Segundo pesquisa recente do IBGE, o Brasil ficou menos desigual em 2014. De fato, nos últimos anos, o índice de pobreza extrema diminuiu, e foram feitos investimentos importantes em áreas carentes – mas se as periferias não são mais completamente destituídas de infraestrutura como já foram, a dimensão de qualidade de serviços segue extremamente desiquilibrada comparando-se zonas pobres e ricas, e a segregação, em todas as suas formas, ainda é muito presente.

Ao passo que mudanças estruturais profundas, que realmente vão na natureza dos problemas, ainda são difíceis de notar, é fácil perceber a transformação da população, hoje mais disposta a trabalhar por conta própria para construir cidades menos desiguais. Em Curitiba (e, felizmente, parece ser uma tendência mundial), esta alteração tem se traduzido, entre outros, na crescente de ocupação dos espaços públicos – e a Praça de Bolso do Ciclista é um bom exemplo do potencial deste movimento.

A Praça de Bolso do Ciclista é um espaço público de lazer inaugurado no Centro Histórico da cidade, em setembro de 2014, graças à iniciativa cidadã. Antes considerado um local inóspito, em função da violência e do tráfico de drogas, hoje é querido pela população e vive um momento de integração e efervescência cultural.

Em linhas gerais, tudo começou quando a Bicicletaria Cultural, centro de apoio a ciclistas hoje reconhecido pelo Smart Living Challenge, se instalou na área e começou a movimentar por lá um grupo de cicloativistas interessado não apenas em mobilidade urbana, mas em sustentabilidade e economia de impacto social. Notando o potencial de da esquina em frente à sua sede, abandonada, para virar espaço de convivência, o coletivo providenciou um projeto de construção e, com o apoio da CicloIguaçu, associação de interface com o poder público, procurou a Prefeitura.

Com o aval do governo, que concordou em doar o material que tivesse em depósito e disponibilizar maquinário e apoio técnico da administração municipal, era necessário angariar mão-de-obra. Decididos a usar as próprias mãos, o time inicial começou a marcar mutirões aos fins de semana e, em cinco meses, com o apoio de mais de 200 voluntários, comemorou a conclusão da investida, no Dia Mundial Sem Carro.

Hoje, parece existir um sentimento de pertencimento à praça pelos curitibanos, que nela passaram a participar de debates, espetáculos, oficinas, aulas de Tai Chi Chuan e mutirões de arrecadação e distribuição de agasalhos e comida, para citar alguns. Para organizar as atividades, foi criada uma agenda pública mantida pela Bicicletaria, de acesso livre, assim como todos os eventos realizados – todos podem usufruir de sua horta comunitária, sentar em seus bancos, apreciar os grafites ao redor e contribuir para aprimorar o local.

A construção da Praça de Bolso dos Ciclistas trouxe consigo a revitalização de suas imediações, o que exige adaptação. Nos últimos tempos, em função do barulho, os eventos culturais se tornaram mais escassos, e a crise de segurança ainda é sensível – criar novas formas de entender e se relacionar com a cidade não é fácil, mas é necessário.

Como dizem no filme sobre a construção histórica na cidade, "Espaço público é fundamental para constituição da democracia, porque as pessoas se encontram. Como ponto de encontro, acaba dissolvendo as diferenças sociais. Claro, elas não terminam, mas são apaziguadas. Todo regime de segregação racial se baseia na segregação espacial, acima de tudo. Se as pessoas convivem, este tipo de preconceito não consegue se sustentar". Graças ao coletivo, Curitiba, apesar de seus problemas, hoje é mais inclusiva.

* Aproveite a oportunidade para entender o que, hoje, é chamado de Placemaking.

Foto: Juju pelo Mundo

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