Em vez de uma vaga de estacionamento, um ciclo orgânico

Andréa Azambuja, Coordenadora da Rede em Rio de Janeiro
Rio de Janeiro, 2 marzo 2016

O Rio de Janeiro é marcado por sua desigualdade extrema. E como afirma o professor do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (IPPUR/UFRJ) Luiz Cesar Ribeiro, em entrevista sobre o livro "Rio de Janeiro: transformações na ordem urbana", de sua coautoria, esta disparidade não sofreu mudanças estruturais nas últimas décadas, provavelmente graças a uma coalizão de forças e interesses fundados nos circuitos de acumulação urbana.

Para enfraquecer o mecanismo excludente, ele aponta, talvez a única solução seja a "vertebração da cidadania " – ou seja, é preciso incentivar o engajamento de grupos sociais na política, promover interações entre as diferentes camadas da sociedade, democratizar os serviços e, com isso, constituir a base de uma solidariedade mais ampla em relação aos problemas da sociedade. Felizmente, uma parcela expressiva da população parece ter percebido que o caminho é esse e tem contribuído para percorrê-lo de forma colaborativa.

Prova disso é o Vaga Viva Ciclo Orgânico, que propõe a construção de parklets – espaços públicos de lazer construídos no lugar de vagas de estacionamento – pela cidade, que deverá sair do papel em breve, graças a uma campanha de financiamento coletivo através da qual foram arrecadados mais de R$ 37.000,00. Como o nome antecipa, o objetivo vai além de desenvolver ruas mais acolhedoras: a ideia é criar um ciclo completo em que água, energia, matéria orgânica e resíduos sólidos se renovem continuamente e, com isso, fomentar reflexões a respeito de sustentabilidade e da possibilidade de vivermos em cidades feitas para e pelas pessoas.

Para isso, os parklets do Vaga Viva terão, além de mobiliário urbano e sombra para os passantes, composteira, horta vertical, sistema de captação de água da chuva interligado a um canal de irrigação, placa solar para alimentação de lâmpadas LED e estação de coleta de pilhas, baterias e celulares, entre outros. Também serão construído circuitos explicativos sobre a produção de adubo orgânico e outros processos sustentáveis que podem ser replicados em casa.

A implementação do Vaga Viva Ciclo Orgânico marcará a consolidação do Paradas Cariocas, programa municipal aprovado em maio de 2015 que estimula a criação dos parklets, segundo release oficial, visando "valorizar a cultura do encontro, do convívio entre as pessoas e a confraternização no espaço público". Pessoas físicas e jurídicas podem requisitar autorização para instalá-los, tornando-se assim responsáveis pela instalação, manutenção e remoção das plataformas. Independente do dirigente, elas devem atender às demandas da população e ter acesso irrestrito a todos, 24h por dia – limitações ou seleção de pessoas são ilegais

Talvez a nova política carioca seja especialmente atrativa a estabelecimentos comerciais, para aumentarem sua capacidade espacial e, consequentemente, o lucro. Se depender da Vaga Ciclo Orgânico e sua rede, no entanto, se manterá como uma ferramenta em potencial para integrar pessoas de diferentes origens em torno de interesses comuns, articular diálogos, nutrir conexões, propagar a sustentabilidade e estimular a ocupação horizontal do ambiente público. Para alimentar a corrente do bem, colaborando, assim, para reduzir a segregação e para tornar a cidade mais habitável.

[O Vaga Viva Ciclo Orgânico foi facilitado por um novo formato de financiamento coletivo denominado matchfunding, através do Natura Cidades, iniciativa da marca de cosméticos Natura e do canal de crowdfunding Benfeitoria para investir em empreendimentos em prol do Rio de Janeiro. Para cada R$ 1,00 doado por benfeitores, a Natura investiu mais R$ 1,00, dobrando o valor arrecadado. Conheça aqui os outros selecionados pelo programa. Do total de seis projetos, cinco alcançaram a meta – a corrente do bem parece estar aumentando.]

Foto: Vaga Viva

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