Feminicidade: Quando mulheres tomam as ruas

Felipe Villela, Coordenador da Rede em São Paulo
São Paulo, 23 março 2016

Cerca de 20 mulheres se encontram domingo à tarde na Praça Roosevelt, centro de São Paulo. Depois de breve conversa, dividem-se em grupos menores carregando baldes de cola, pincéis e pôsteres. As únicas regras são não colar sobre grafites, em prédios públicos ou dentro de propriedade particular. No fim do dia, mensagens como “Vivi num meio machista, mas macho nenhum atrapalhou meus sonhos” ou “Escuto um monte de coisa de homem, ele querer bater, como pode uma mulher passar por coisa dessa?” estampavam as ruas, preparando terreno para o Dia Internacional das Mulheres, dali a dois dias. Simultaneamente, outras mulheres se juntaram no Rio de Janeiro e em Brasília para fazer a mesma coisa.

Por onde o Feminicidade passou, ficaram fotos e breves depoimentos sobre dificuldades cotidianas enfrentadas por mulheres em cidades brasileiras. Como ter que escolher o caminho mais seguro, enquanto "os homens podem escolher o mais curto". O medo que transparece neste depoimento de Fabiana Pinto é reforçado por dados do Mapa da Violência: Homicídios de Mulheres no Brasil, publicado em 2015 pela Flacso – Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais.

O levantamento mostra que no país mais de 71% dos atendimentos em unidades de saúde pública de vítimas de violência doméstica, sexual e outros tipos são de mulheres adultas. Os números são ainda mais graves entre mulheres negras. De 2003 a 2013, a taxa de homicídio destas mulheres cresceu 54%, enquanto o feminicídio de brancas caiu quase 10%. O estudo da Flacso mostra, ainda, que aproximadamente 31% do total de assassinatos acontecem na rua, e 27% no domicílio das vítimas.

Para Camila Borges, voluntária organizadora do Feminicidade, o medo que aflige principalmente mulheres pobres e negras resultou num projeto de lei apresentado este ano na câmara municipal de São Paulo, que propõe que qualquer mulher tenha o direito de pedir ao motorista que pare o ônibus fora do ponto depois das 22h. Assim, podem escolher o lugar aparentemente mais seguro para descer.

É justamente para trazer visibilidade para estes problemas que o Feminicidade buscou depoimentos reais em diferentes lugares do Brasil. A mobilização começou com um convite um ano antes no Atados, site que conecta voluntários, ações sociais e patrocinadores. Procuravam-se pessoas com habilidade para escrever ou fotografar. Depois, as interessadas formaram pequenos grupos para entrevistar mulheres nas ruas ou em redes sociais. Alguns destes depoimentos acabaram publicados na internet, na íntegra, e trechos foram parar nos cartazes. Para bancar a impressão, fizeram uma vaquinha virtual.

Uma semana depois da distribuição dos cartazes, o projeto terminou com um encontro em São Paulo, onde as protagonistas eram mulheres negras, da periferia, gordas, encarceradas e transexuais. Como diz Camila Borges, atividades assim estimulam a sororidade, termo cada vez mais popular entre as mulheres. "Quando uma enxerga a outra como amiga, com uma irmã disponível para ajudar".

Fotos: Eliane Matos - Feminicity

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