Um Rio mais fluído sobre trilhos?

Andréa Azambuja, Coordenadora da Rede em Rio de Janeiro
Rio de Janeiro, 27 abril 2016

Em menos de quatro meses, os Jogos Olímpicos de 2016 oficialmente chegarão ao Rio de Janeiro, após cerca de oito anos de planejamentos urbanos questionáveis, construções superfaturadas e muita controvérsia. Muitas das obras aceleradas para o evento são relativas à mobilidade e, agora, prestes a ser totalmente entregues, estão sendo mais aguardadas do que qualquer prova esportiva.

Uma das mais comentadas é a rede de veículos leves sobre trilhos (VLT), modal não poluente movido à eletricidade, pioneiro no estado. O VLT carioca também é um dos primeiros do mundo projetado sem a tecnologia catenária, que usa cabos e fios suspensos para captação de energia – os veículos contam com um sistema próprio de geração, pelo solo, que, além de não utilizar combustível fóssil, armazena a força gerada no processo de freagem, sendo, assim, ainda mais sustentável e econômico.

O VLT carioca, que deve ser inaugurado oficialmente no próximo mês, terá aproximadamente 28km de extensão, divididos em seis linhas, com quatro estações principais e 42 paradas. Ao todo, serão 32 "bondes" em ação, durante 24 horas, sete dias por semana, todos equipados com ar condicionado e integrados com o Aeroporto Santos Dumont, barcas, trens, metrô, ônibus, teleféricos e BRTs. A expectativa é que transportem até 300 mil indivíduos por dia, com velocidade de 18km/h nos trechos mais difíceis e, durante a madrugada e em perímetros menos concorridos, de até 50km/h.

Uma das grandes novidades do novo meio transporte é o modo de pagamento: a compra da passagem será feita do lado externo dos veículos – que não contarão com catracas, roletas ou cobradores –, e a tarifa será validade voluntariamente pelos próprios passageiros, num leitor digital. Talvez uma opção improvável para a cidade até pouco tempo atrás, a iniciativa incentiva uma mudança expressiva no comportamento do usuário, uma nova civilidade baseada na boa-fé, uma experiência interessante num país conhecido pelo "jeitinho brasileiro".

A rede de VLTs carioca faz parte do Porto Maravilha, um amplo projeto municipal para revitalizar a zona portuária e seus entornos, e resgatará as lembranças dos primeiros bondes elétricos da capital, que começaram a circular em 1892. Em muitos pontos, o itinerário dos veículos será o mesmo de 160 anos atrás, todos terão mecanismos de controle de ruído para minimizar o impacto das vibrações em prédios históricos e até uma buzina especial reproduzirá a campainha dos antigos bondes.

Se a importância do resgate histórico é inquestionável, nestas proporções deixa dúvidas: o VLT é anunciado pela Prefeitura como "a solução de mobilidade urbana que o Rio de Janeiro esperava", custou aproximadamente R$ 1.200 bilhão (R$ 532 milhões com recursos federais do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) da Mobilidade, e R$ 625 milhões viabilizados por meio de parceria público-privada da Prefeitura), mas faz um caminho curto e atende uma parcela extremamente reduzida da população. Enquanto o poder público argumenta que o sistema tirará 60% dos ônibus e 15% dos carros que circulam atualmente no centro, moradores perguntam como devem, em primeiro lugar, chegar à região e bradam que jamais foram consultados sobre suas necessidades. Solução eficiente de locomoção, ou interesses econômicos mascarados de boa intenção? Resta ver o bonde, quer dizer, a Olimpíada passar e aguardar o que o futuro dirá.

Foto: VLT do Rio de Janeiro, pela Prefeitura

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