O teatro pode transformar a realidade?

Felipe Villela, Coordenadora da Rede em Rio de Janeiro
Rio de Janeiro, 18 agosto 2016

“Uma vez, no fim de uma apresentação um senhor gritou: se Deus colocou leite no peito da mulher é para ela servir à família.” Como lembra Maiara Carvalho, esta foi uma das reações mais inesperadas depois de se apresentar em praça pública. A surpresa não foi apenas pela reação do idoso, mas porque um menino se levantou para discordar: “tudo o que ela quer é ser feliz”. Os dois estavam respondendo aos atores que perguntaram à plateia o que achavam da personagem oprimida pelo marido.

Maiara Carvalho é integrante do Maré 12, um grupo formado por sete garotas, entre 16 e 21 anos, que há um ano e meio fazem experiências com o método do Teatro do Oprimido (TO). Elas são vizinhas no pedacinho da Maré que fica entre a passarela 12, sobre a Avenida Brasil, e o piscinão de Ramos – uma área de lazer construída na faixa de areia de uma praia com água tão suja que ninguém pode mergulhar no mar.

O grupo surgiu depois que alguns “curingas” chegaram na sua comunidade. Um destes “artistas ativistas com uma função pedagógica” era Alessandro Conceição, que acumula 10 anos de experiência em “curingagem”. Segundo ele, a ideia do projeto TO na Maré era utilizar o teatro como ferramenta para debater políticas públicas com os jovens e pensar como poderiam interferir nas ações do governo, além de discutir hábitos opressivos reproduzidos dentro da comunidade. Desde 2014, pelo menos 500 jovens participaram de atividades em escolas públicas, postos de saúde, centros culturais e instalações de ONGs.

O método seguido pelos curingas é sempre o mesmo: encenar situações de opressão e convidar a plateia para interferir na história. Espectadores podem até mesmo entrar na cena e substituir a personagem oprimida para experimentar diferentes reações. Apesar do método deste Teatro Fórum não mudar muito, cada apresentação é única, já que o argumento e o desfecho da cena variam conforme o público. Na Maré, por exemplo, os temas que mais apareceram foram, em ordem de frequência, machismo, racismo e o estigma enfrentado fora da favela, quando saem para procurar trabalho ou estudar numa universidade.

O projeto TO na Maré deve terminar em breve, quando acaba o prazo de dois anos de financiamento da Petrobras, mas se espera que as sementes espalhadas pela comunidade deem mais frutos. Como o Maré 12 e, especialmente, Maiara – que está estudando para ser curinga e fazendo graduação em pedagogia.

Foto: Ney Motta

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