Curitiba por Jaime Lerner

Andréa Azambuja, Coordenadora da Rede em Curitiba
Curitiba, 23 junio 2016

O arquiteto e urbanista Jaime Lerner teve um papel fundamental na história de Curitiba. No primeiro de três mandados como prefeito da cidade, em 1974, foi ele quem implementou as vias exclusivas para os ônibus, origem da atual Rede Integrada de Transporte, que serviria de modelo a diversos países, fazendo do município uma referência internacional em mobilidade.

Hoje consultor das Nações Unidas para assuntos de urbanismo, Lerner também foi governador do Paraná e conduziu transformações socioeconômicas expressivas no estado – feitos reconhecidos com diversos prêmios e títulos, como o Prêmio Máximo das Nações Unidas para o Meio Ambiente (1990) e a inclusão, pela revista Time, em 2010, de seu nome na lista dos 25 pensadores mais influentes do mundo.

De seu escritório, ele conversou com o URB.im sobre o momento atual da capital e seu potencial.

Como construir cidades igualitárias?

Em primeiro lugar, integrar as funções urbanas. Não separar as pessoas por renda, por atividade... Segundo: sempre proporcionar a residência perto do trabalho. Terceiro: buscar respostas, soluções, que possam ser dadas mais rapidamente à população – mas, ao mesmo tempo, não querer ter todas as respostas, e não cansar de (re)começar.

Quais são os principais desafios de Curitiba neste sentido?

Para começar, continuar melhorando o seu sistema de transporte, que é bom, mas precisa progredir. Tem que haver um compromisso constante com a inovação. Precisamos avançar na eletrificação do sistema e na operação. Evitar soluções tipo o Minha Casa, Minha Vida, que jogam as pessoas nas periferias.

Ocupar a cidade com os jovens, trabalhar mais com eles. É indispensável, também, investir mais em cultura e reforçar a identidade das pessoas. Vou dizer uma frase significativa: "Se você quer atividade, corte um zero do orçamento. Se quer sustentabilidade, corte dois zeros. Se deseja solidariedade, assuma a sua identidade e respeite a identidade dos outros".

Qual é o papel da administração pública e do setor privado neste cenário?

Trabalhar juntos. A questão é reduzir a burocracia, que é um entrave.

Você acredita que os cidadãos conseguem de fato participar do processo de planejamento da cidade?

Se você quer fazer algo acontecer, proponha uma ideia. Para que todos, ou a grande maioria, entendam como desejarem. A partir disso, outros ajudarão a fazer acontecer. É importante que os planos comecem com uma proposta, seja pela população, pelo governo, pela área técnica... não importa. O processo de planejamento é uma trajetória, e deve-se dar espaço para que a população interceda quando não se está no caminho certo. É necessário discutir cenários – a discussão que se estabelece em torno das possibilidades leva para o caminho certo.

Você consegue citar um exemplo da tecnologia funcionando em favor dos habitantes de Curitiba?

A tecnologia pode melhor muita coisa, mas o mais importante é a concepção. Veja o exemplo da mobilidade – o mundo inteiro está discutindo mais performance para os carros, automóveis driverless... Ao mesmo tempo, algo está sendo esquecido: o carro continuará ocupando o mesmo espaço. Uma solução para a mobilidade é a que citei, morar e trabalhar perto – o segredo está na concepção. Nessa obsessão por novos gadgets, às vezes o propósito se perde. A cidade não pode depender do automóvel, que é o cigarro do futuro.

Curitiba é referência mundial de "cidade smart". Isso fazia mais sentido no passado, é uma realidade ou um mito?

Curitiba ainda é uma boa referência. Continuamos com problemas, igual às outras cidades do mundo. E é uma cidade que deveria ter continuado a inovar constantemente. Deu uma reduzida, mas ainda é inovadora. Mas sempre é possível avançar.
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Foto: jaimelerner.com

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