Urbanista Nadia Somekh: "A cidade é o lugar para a democracia direta"

Felipe Villela, Coordenador da Rede em São Paulo
São Paulo, 6 junio 2016

Poucos dias após o afastamento do seu partido da Presidência da República por um polêmico processo de impeachment que continua em andamento, a arquiteta e urbanista Nadia Somekh conversou com o Urb.im. Sob influência da derrocada do PT, a conversa sobre os 40 anos de trabalho dentro da máquina de prefeituras paulistas foi também sobre frustrações: “ausência de visão de conjunto na estrutura do governo”, “imobilismo” e “burocracia”.

Sua carreira começou na Secretaria Municipal de Planejamento de SP, como servidora, em 1976. Depois foi secretária de Desenvolvimento Econômico de Santo André, presidente da EMURB (Empresa Municipal de Urbanização de SP) e secretária de Planejamento Urbano de São Bernardo do Campo.

Atualmente é diretora do Departamento de Patrimônio Histórico da Prefeitura de SP, e a primeira presidente do CONPRESP (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de SP) a permitir que pessoas de fora do governo acompanhem as reuniões. Também é professora e pesquisadora da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Confira os principais temas da entrevista.

Teoria

Nadia Somekh: No Brasil, a crítica acadêmica é pouco valorizada, por isso tem pouco efeito. Um problema recorrente é a fragmentação da gestão. Minha frustração é essa: ausência de visão de conjunto na estrutura do governo.

O Departamento de Patrimônio Histórico, por exemplo, está dentro da Secretaria de Cultura, mas precisa estar articulado à Secretaria de Desenvolvimento Urbano. O futuro da cidade está baseado na memória, e projetos arrasa-quarteirão estão ultrapassados. Por isso, o desenvolvimento urbano, que está ligado à hegemonia da construção, precisa considerar também a preservação do patrimônio.

Prática

O nível municipal é o lugar para a democracia direta. Mas, qual é o papel do Estado na cidade capitalista? Reproduzir o capitalismo. Mesmo assim, o Estado pode ser pressionado a construir cidadania, a ser mais democrático. O gestor público é um mediador e, por isso, precisamos publicizar os interesses capitalistas, e também os de outros grupos. Em Santo André, por exemplo, usamos desenhos como instrumento de mediação para discutir com a população o Projeto Eixo Tamanduatehy, que não chegou a ser implantado.

Mas ainda estamos longe de ter processos realmente participativos. Para construir coletivamente a cidade, precisamos reforçar a urbanidade. De forma simplificada, urbanidade é o espaço público, são os espaços para diálogo.

Esta preocupação aparece no novo Plano Diretor de São Paulo [aprovado em 2014]. Foram criadas regras para estimular fachadas ativas [prédios com comércio no térreo voltados para a rua], contra a autonomia de condomínios fechados.

A estrutura da gestão leva ao imobilismo e à burocracia. Os servidores ficam voltados apenas para salário, estabilidade e aposentadoria, mas precisam pensar no todo, em questões globais, ambientais.

Fotos: Felipe Villela

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