"Não adianta querer matar o comércio de rua"

Felipe Villela, Coordenador da Rede em São Paulo
São Paulo, 8 julio 2016

Há 30 anos no centro da cidade vendendo água, suco e café durante a noite, Valdina Andrade já viu de tudo. “Companheira que o rapa apreendeu a mercadoria, foi pra casa, enfartou e morreu. Que saiu correndo do rapa, atravessou a rua e foi atropelada.” “A violência não é só física, é moral também. A ambulante se sente acuada diante dos homens”, fazendo referência aos agentes da GCM (Guarda Civil Metropolitana), que reprimem atividades irregulares nas ruas da cidade.

Valdina participa do Fórum dos Ambulantes desde 2009, entidade que defende os interesses dos 1.940 trabalhadores com TPU (Termo de Permissão de Uso da rua para comércio). Número que representava, em 2010, apenas 1,4% dos 138 mil trabalhadores autônomos na cidade de São Paulo, segundo levantamento do DIEESE. Por isso, “trabalhadores do corre”, literalmente aqueles que correm da fiscalização por serem ilegais, criaram uma nova associação.

“Temos esperança de abrir um caminho de diálogo com a prefeitura”, diz Valdina Andrade, presidente da Jaciara (Associação das Trabalhadoras, Trabalhadores e Feirantes do Corre). Diferente do Fórum, 85% da Jaciara é composta por mulheres. Com apoio do Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos e da CMP (Central de Movimentos Populares), a associação conseguiu permissão da prefeitura para ambulantes sem TPU atuarem nos eventos públicos da Copa do Mundo, no carnaval de rua, na Parada Gay e na Virada Cultural.

Quando a prefeitura ameaçou cancelar todos os TPUs para eliminar o comércio de rua na cidade, em 2012, o Gaspar Garcia entrou com uma ação civil pública reivindicando políticas públicas específicas para trabalhadores informais. Os TPUs não foram revogados por ordem do Tribunal de Justiça do Estado de SP, e a prefeitura decidiu não conceder nenhuma nova licença até o fim do processo, que corre até hoje.

Ausência de banheiros públicos (ambulantes tem que negociar com comerciantes locais para usar seus banheiros), barracas precárias, marginalização, violência e risco de apreensão dos produtos fazem parte do cotidiano dos trabalhadores do corre.

As dificuldades são ainda mais pesadas para as mulheres. “Numa sociedade machista ela é responsável pela criação dos filhos. Flexibilidade de horário e local de trabalho ajuda, mas levar crianças para a rua é um problema”, explica Cristiane Sato, coordenadora do Projeto Trabalhadoras Informais e Direito à Cidade, do Centro Gaspar Garcia. Por isso, querem creches municipais em lugares que concentram ambulantes, como na região central, na Lapa, em São Miguel Paulista e Jabaquara.

Apesar das dificuldades, o comércio de rua continua parte da cidade. “Sou um anjo da guarda onde trabalho. Socorremos gente que caiu, que passou mal. De noite o pessoal fica perto pra se proteger de assaltos”, diz Valdina. “Trabalhador ambulante é uma realidade. A gente não quer violência, a gente quer dignidade”, conclui a líder da Jaciara. Close.

Fotos: Felipe Villela

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