(Re)Tratos nas ruas

Andréa Azambuja, Coordenadora da Rede em Curitiba
Curitiba, 24 ‎agosto 2016

O que acontece quando moradores de rua, dependentes químicos e pessoas com sintomas de transtornos mentais saem da invisibilidade à qual em geral são submetidos e mostram o seu olhar sobre a vida para o resto do mundo? Em Curitiba, acontecem retratos – melhor, o Re-Tratos da Rua, projeto que usa a fotografia para incentivar o protagonismo destes indivíduos em vulnerabilidade e inserir o tema na pauta da cidade.

O Re-Tratos da Rua é uma iniciativa da Secretaria Municipal da Saúde, idealizada pelo Departamento de Saúde Mental, para promover a reabilitação psicossocial de cidadãos em atendimento nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPs) e nos Centros de Convivência da cidade – que também oferecem atendimento psicológico e psiquiátrico, terapia ocupacional, assistência social, cuidados de higiene, alimentação, albergagem e encaminhamentos para instrumentos diferentes de proteção social, entre outros.

Apesar de não funcionar como formação técnica, mas como processo terapêutico, o projeto compreende abordagens de uma. Em aulas teóricas, são desenvolvidos módulos de foco, zoom, cor, tempo e movimento, iluminação, composição – apresentados como ferramentas a serviço da criatividade – e, em atividades práticas, são realizadas saídas de campo por espaços públicos e museus. Além disso, são organizadas rodas de conversa sobre fotos, saúde, projetos de vida, existência e todos, juntos, planejam exposições e a confecção de um catálogo.

O processo é rico e intenso. Compor equipe, visitar locais, divulgar workshops, planejar turmas, desenvolver exercícios, elaborar e pôr em prática as teorias… envolve muita gente, dos gestores e funcionários das instituições envolvidas a representantes de movimentos sociais, fotógrafos, produtores, moradores da cidade. Aí um dos méritos do projeto: o Re-Tratos conecta uma ampla rede e exercita a superação da invisibilidade de populações estigmatizadas abrindo espaço para os próprios sujeitos interagirem e se retratarem conforme suas próprias perspectivas, opiniões, desejos, sem reproduzir a lógica da redução do outro a um objeto de análise. Isso, enquanto desenvolve nos alunos a possibilidade de perceberem-se em novos momentos, com novos olhares para a cidade, para as pessoas e para si mesmos.

As fotos produzidas pela primeira turma do Re-Tratos, iniciada no fim de 2014 – a única até agora, com participação de mais de 60 integrantes – ficaram expostas em diferentes eventos e espaços culturais de Curitiba por mais de um ano. Os bons frutos da iniciativa, porém, vão muito além: três meses atrás, após o curso, os usuários da Saúde Mental se organizaram e criaram a ASSOVIAR, Associação Vida, Arte e Reinserção, entidade sem fins lucrativos mas com perspectivas de geração de renda, que permitirá que comercializem as fotos e peças de artesanato, pinturas, plantas e outros produtos confeccionados nas atividades ministradas nos centros de apoio.

A ASSOVIAR funciona por mecanismos da economia solidária, o que significa que todos deliberam e se coresponsabilizam pela gestão administrativa, de custos, recursos e pela partilha de ganhos. Tudo certo, o grupo trabalha bem junto: não só já fez a cobertura fotográfica de peças e performances apresentadas nas ruas, durante a 25ª edição do Festival de Teatro de Curitiba, como, agora, estão participando de uma oficina de formação continuada, com objetivo de profissionalização, já criada em parceria pela ASSOVIAR com o Centro de Convivência Matriz, o Projeto Re-Tratos da Rua e o fotógrafo Douglas Fróis.

O Re-Tratos da Rua se mostrou uma ferramenta emancipatória significativa. Promoveu a autonomia, a autoestima, a cidadania, o protagonismo dos participantes e, pela revisita de afetos e memórias, permitiu a ressignificação de situações de suas vida, de suas histórias pessoais e reconstruiu seus sentimentos de pertencimento. A arte – e a empatia – são mesmo poderosas.

Foto: Francielle Lima, participante do Re-Tratos da Rua, 2015

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